Waly Salomão, feminista existencial

“Matriz baiana do tropicalismo”, segundo Glauber Rocha, Waly Salomão nasceu 130 anos depois destaque-waly-salomaodo filósofo Soren Kierkegard. Mas o encontrou na segunda metade do século XX e, por ele, explorou uma visão feminista na música contemporânea que, até hoje, espera reconhecimento.

Soren é o equivalente a Severino em dinamarquês, mas é com o pseudônimo latino de “Johanes de Silentio (João do Silêncio, nome emprestado de uma velha fábula), que o filósofo assina a obra que encantou e teve uma influência insuspeita sobre o baiano que foi ex-hóspede de Caetano Veloso, letrista de Maria Bethânia, produtor de espetáculos de sucesso para Gal Costa, editor de Torquato Neto, íntimo de Hélio Oiticica, colega de escola de Gilberto Gil e participante, com Tom Zé, de espetáculos de Centros Populares de Cultura na Bahia dos anos 60.

Waly já chegou a dizer que não se incluía, que não se sentia parte do tropicalismo. Sua aproximação com Gilberto Gil e Tom Zé se deu na movimentação estética e política na Bahia dos anos 60, com peças de protesto levadas às nascentes favelas de Salvador, palestras na faculdade de Medicina sobre o marxismo, um centro de estudos sobre o filósofo Antônio Gramsci.20171101152902594130u  “Éramos uma esquerda marxista-existencialista, porque líamos Marx, Camus, Sartre e Merleau Ponty, quer dizer, essa encruzilhada de paradoxos”, disse Waly Salomão à pesquisadora Heloísa Buarque de Holanda, em 2003, numa entrevista publicada originalmente no Jornal do Brasil e reproduzida, na Internet, pelo Jornal de Poesia.

Foi nessa entrevista que ele tirou do armário sua relação com Kierkegaard, um alívio para o artista nos tempos cinzentos do golpe militar: “em 1964, o corte foi o mais abrupto possível. Mas foi também nessa época que li Tremor e temorde Kiekergaard, genial protestante existencialista que contava de repetidos ângulos a história de Abrahão, incumbido por Deus de matar Isaac. Um livro de perspectiva cinética”, contou Waly Salomão.

Waly não deu muitos detalhes do que encontrou em Kierkegaard. Pode até parecer que foi atraído pela forma literária do filósofo, que, em “Tremor e Temor”, obra cultuadíssima, para melhor exibir seu argumento sobre fé, ética e paixão, varia de pontos de vista ao descrever uma cena bíblica: o velho Abraão, por ordem de Deus, leva o único filho ao sacrifício _ e só não mata a única pessoa no mundo capaz de lhe dar descendentes porque, quando já levantava a mão para descer o facão sobre o filho, Deus lhe envia um anjo com o recado de que tudo era só um teste de fé do Todo-Poderoso. Tipo: “Pô, Abraão, você não sabe que o Velho é dado a umas brincadeiras de mau gosto?” 1200px-sacrifice_of_isaac-caravaggio_28uffizi29

Mas o compositor baiano deixou uma pista de que a influência do filósofo dinamarquês foi maior do que apenas uma receita de estilo. É o disco “Real Grandeza”, em parceria com Jards Macalé,  com letras publicadas no livro Gigolô de Bibelôs, da saudosa editora Brasiliense. As referências a amor, paixão e certas metáforas com tempero religioso nas músicas de Waly Salomão têm um forte sotaque existencialista dinamarquês. É comparar para ver a influência.

Você pode entender Tremor e Temor como uma louvação de Kierkegaard ao que considera a maior de todas as paixões, a religiosa, a fé. O crente é, antes de tudo, um amante, dizia o dinamarquês. O amor de Deus e o amor por Deus expresso pela fé são o que Kierkegaard classifica como amor “sem porquê”, incondicional, diferente daquele amor tradicional que acende ao encontrar, no ser amado, semelhanças, afinidades, um espelho do Eu.

O amor comum seria uma busca de identificação, o velho amor pelo Belo, já falado pelo grego Sócrates, um amor entre iguais. No homem, a maior das paixões seria a fé, um amor assimétrico, acima da ética, dos deveres, das convenções sociais; individual e inexplicável.

nelson-cavaquinhookjpg_610x340“Amor devoção fé absoluta e total”, escreve Waly em “The Beauty and the beast”,  texto de Gigolô de Bibelôs. Em outros textos, convertidos em letras de Real Grandeza (CD póstumo, lançado por Macalé, aliás), a aproximação com a fé tremelicante e atemorizada de Kierkegaard é mais escancarada. O disco, conta Macalé, seguiu a linha da “ Morbeza Romântica” _ neologismo e quase pleonasmo, no mesmo termo morbidez e beleza, temas da essência do romantismo. Explica o músico: “a gente brincava de ser um experimento “lupiscínico” e “nelson cavaquinhesco”: letras à la Lupicinio Rodrigues, onde (sic) coloquei linhas melódicas e harmonias surrealistas, em um violão neurótico a Nelson Cavaquinho. Nasceram músicas soltas, doidas, tortas, com asas de avião: ‘ANJO EXTERMINADO’, ‘SENHOR DOS SÁBADOS’, ‘DONA DE CASTELO’, ‘RUA REAL GRANDEZA’.”

61799a3259a1c79472c671e561bd8b6c31b070a9Lupicínio, autor gaúcho que neste ano que vem fez cento e cinco anos de nascimento (e 45 de morte), é definido por Ricardo Cravo Albin, em seu Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira, como “o que melhor destilou os amores desfeitos e as dores-de-cotovelo na história do samba-canção e da boêmia neste país”. Dor-de-cotovelo, expressão cuja criação é atribuída ao próprio Lupicínio, é o que sente o amante abandonado, com os braços dobrados, cravados na mesa de bar, a afogar as mágoas pela perda do ser amado. Mas o ser amoroso de Waly, ainda que inspirado em Lupicínio para falar de dores de amor, não é uma pessoa paralisada por lamentos e pela perda. A Morbeza Romântica não é dor-de-cotovelo.

Em “Volta”, de Lupiscínio, o cotovelo dói assim: “Quantas noites não durmo, /A rolar-me na cama / … Não há nada no mundo/Que possa afastar/ Esse frio do meu peito./Volta,/ Vem viver outra vez ao meu lado,/ Não consigo dormir sem teu braço,/ Pois meu corpo está acostumado…” Ou, em  “Cadeira Vazia”: “Entra, meu amor, fica à vontade /… /Entra, podes entrar, a casa é tua /Já te cansastes de viver na rua E os teus sonhos chegaram ao fim /Eu sofri demais quando partiste/… Voltaste, estás bem, fico contente/ Mas me encontraste muito diferente /…Eu não te darei carinho nem afetoMas pra te abrigar podes ocupar meu teto Pra te alimentar podes comer meu pão.

 

O amante de Lupicínio, em “Volta”, sofre. Seu amor, embora indefinível, evoca imagens carnais, bem físicas: quem se acostumou com a amada foi o corpo; a falta que ele sente é do calor que as cobertas não dão; é o braço, ao lado, que aqueceria o coração do poeta. Em “Cadeira vazia” aquele que recebe de volta a amada a recebe como “filha pródiga”, mas está frio: dá abrigo, mas nega carinho, ou mesmo afeto.4be820c241d08

Essa conversão de amor em frieza ganha tons apaixonados, mas também rancorosos em outras músicas também modelares da poesia “lupicínica”. Em “Vingança”, uma das mais belas composições do poeta, o rancor dá o tom dos sentimentos do ex-amante:  “Eu gostei tanto, tanto quando me contaram Que lhe encontraram chorando e bebendo na mesa de um bar  Eu não quero mais nada / /Só vingança, vingança, vingança aos santos clamar Você há de rolar como as pedras Que rolam na estrada Sem ter nunca um cantinho de seu Pra poder descansar” .

É, o amante de Lupiscinio não era mole.

O casal enlaçado pela “morbeza romântica” de Waly Salomão tem outro tipo de relação amorosa, extraordinariamente contemporânea desses tempos de igualdade de gêneros. Compare-se, por exemplo, o desencantado protagonista da “Cadeira Vazia” de Lupiscínio com o agitado e ansioso amante do “Anjo Exterminado”de Waly:

“Quando você passa três, quatro dias desaparecida/Me queimo num fogo louco de paixão/Ou você faz de mim alto-relevo no seu coração/Ou não vou mais topar ficar deitado/Um moço solitário, poeta benquisto/Até você tornar doente, cansada, acabada/Das curtições otárias…” O poeta sobe e desce escadas, apaga e acende a luz do quarto, fecha/abre janelas sobre a Guanabara e já não pensa “mais em nada”: “meu olhar vara vasculha a madrugada/Anjo exterminado/Olho o relógio iluminado anúncios luminosos/Luzes da cidade, estrelas do céu/Me queimo num fogo louco de paixão”. E, exasperado, blefa, ameaça abandonar a amada: “pois sei que você acaba sempre por tornar ao meu lar/Mesmo porque não tem outro lugar onde parar.”

O poeta sabe que a amada voltará ao lar. Planeja abandoná-la (ou “abandonar-lhe”, curiosa repetição involuntária do incorreto “lhe encontraram” na mesa de bar de Lupicínio), mas espera por ela e sabe que a mulher não tem “outro lugar” onde ficar. O lugar dela é junto do amante que se queima num fogo louco de paixão. Nenhuma referência a pedras da rua, sem abrigo e sem parada, como na arrependida de Lupicínio. Parece não haver do que se arrepender, no apartamento com janelas sobre a Guanabara.

A música “Real Grandeza”, também compartilha, com “Anjo Exterminado” dessa agitação que, como se sabe, era uma característica pessoal do poeta. Ele levava sua tese sobre a teatralização da realidade para a própria vida, e parecia estar permanentemente desempenhando um papel exuberante no teatro do mundo. “Ah vale a pena ser poeta/Escutar você torcer de volta a chave/Na fechadura da porta/Abra volte veja…”

Mais uma vez, o amante espera, ansioso, a volta do ser amado, nesse caso uma “figura leviana” que o “embroma”, e com quem ele pensa cortar relações, mas a quem apela para que volte. Apaixonado, fala dramaticamente em “jatos de sangue” espetacularmente belos. Ao lado das queixas, o que marca a canção é o pedido para que a amada retorne à casa, endereço onde o amante sempre morou, onde ele, não a mulher, está esperando. E Waly comemora o fato de ser poeta.

O também poeta e crítico Antônio Cícero, no livro A Falange de Máscaras de Waly Salomão, conta como o baiano dizia ter transformado o trauma da prisão e da tortura nos anos 60 em material de trabalho: fingiu estar no teatro, assumiu-se como personagem e distribuiu papéis imaginários aos carcereiros. Comemorar o fato de ser poeta, ser capaz de canalizar sua angústia para a criação de uma obra poética é uma manifestação que têm afinidades óbvias com o que é relatado pelo crítico e amigo. “Ele acreditava que simplesmente agindo de uma maneira não-convencional já estaria praticando poesia”, diz Carlos Nader, no documentário de sua autoria “Pan-Cinema Permanente”, sobre horas de conversa com Waly Salomão.

Mas uma das chaves, em Real Grandeza, para ligar Waly a Kierkegaard é “Senhor dos Sábados”, outra canção em que o poeta fala de alguém à espera da pessoa amada no ambiente de um quarto, revoltado pela ausência e aparente abandono, que implora a volta de quem ama.: “Uma Noite/Noites/Noites Em Claro/Noites Em Claro Não Matam Ninguém/Mas É Claro, Perdi A Razão/Gritei Seu Nome Por Toda A Parte/Do Edifício Em Vão…”. O poeta diz ter quebrado vidraças, riscado paredes “com frases roucas de paixão” e rasgado o retrato da amada com os dentes, a alma ardendo. “Volte Cedo/Antes Que Acenda A Luz Do Dia/Apague Meu Desejo Num Beijo/Bem Bom/Meu Bem Volte Cedo Meu Bem Volte Bem Cedo.”

Que amante é esse, que, em casa, se despedaça de paixão esperando pela amada? Waly conta, no livro “Gigolô de Bibelôs”, em um texto intitulado “Mal Secreto da Linha de Morbeza Romântica???”, que, ao escrever a música “Senhor dos Sábados”, identificou-se “com o amor feminino das santas mulheres, especialmente a de “Santa Terezinha suplicante por ser abrasada penetrada pelo amor divino e ser submergida num ardoroso abismo e onde é evidente a analogia entre a linguagem erótica e a linguagem mística”. E segue: “me tornei SERVA DO SENHOR, naquele tempo once upon a time naquele então da linha de da LINHA DE MORBEZA ROMÂNTICA.”

O texto tem mais um parágrafo, final, em três versos: “Hoje: me libertei daquela vida vulgar…/Amanhã: He’ll be big and strong./Assinado: O FAQUIR DA DOR.13

Nas músicas de Real Grandeza, as dicotomias entre o lar e a rua, a casa e a cidade, também parecem trazer referências a metáforas religiosas, das Trevas e da Luz, nas canções “Anjo Exterminado, e Senhos dos Sábados. O poeta apaga acende a luz do quarto, e mira a cidade iluminada, anúncios luminosos, luzes do céu. Em Senhor dos Sábados, de seu ponto de vista, a “escuridão do quarto”, o poeta pede que amada volte antes que acenda a luz do dia.

Mais explícita é a referência do poeta à paixão como algo que arde, queima, como o amor divino que penetra Santa Teresinha e, na descrição de Waly, a abrasa e a submerge num “ardoroso abismo”. Esse fogo divino se espalha pelas letras de Real Grandeza, e descreve também a paixão do homem que, em seu lar, espera o ser amado que se identifica com a luz (ou se antecipa a ela, no “Senhor dos Sábados”. Antes de pedir que o ser amado volte cedo e “apague” seu desejo com um beijo, o poeta conta: “minha alma ardia meu bem…”).

Kierkegaard, quem diria, acabou em Botafogo, bairro do Rio onde fica a rua Real Grandeza que inspirou Waly Salomão. É uma paixão kierkegaardiana que sente o amoroso  personagem dos poemas de Waly. Arde como Santa Teresinha e nada espera da amada, apenas que volte, e o encontre consumido pelo fogo da paixão.

O amante de Real Grandeza (porque é possível, sem exagero, encontrar nas diversas canções descrevem um mesmo amante essencial) até fala em abandonar o ser amado que lhe traz tanta angústia. Em uma das canções esboça a execução desse plano, rompendo com a oposição entre seu lugar, a casa, e o lugar da amada, a rua, saindo ele próprio ao cantar sua despedida. É emVapor Barato, onde o poeta desce “por todas as ruas”, e avisa que vai tomar um navio, para esquecer sua grande imensa obsessão.

Oh sim, eu estou tão cansado, mas não pra dizer/Que eu não acredito mais em você/…Eu vou tomar aquele velho navio/… Eu preciso esquecê-la/A minha grande a minha pequena/A minha imensa obsessão/A minha grande obsessão/Oh minha honey/Baby, baby, baby…

 

Não há recriminações, nem aí, no momento da partida, da escolha. O poeta, que em outros textos aparece forte, disposto a sofrer provações como um “faquir da dor”, está muito cansado, mas não ao ponto de deixar de avisar que perdeu a fé, e quer partir. Essa canção, a mais pessimista do disco, está marcada pelo desencanto de Waly com o país e a vontade de viajar, após ser preso e torturado no presídio do Carandiru, capturado por um flagrante com um cigarro de maconha, segundo relata o parceiro Jards Macalé,. Waly, muito crítico em relação à letra, disse considerá-la “subliterata”.

O poeta, nesse conjunto de obras alinhavadas pela “linha de morbeza romântica”, mostra sua concepção original e pós-moderna da relação amorosa, em que inverte os papéis desempenhados pelo homem e pela mulher _ ele vinculando-se ao ambiente doméstico e ela, à alegria, consentida pelo parceiro, do mundo, fora do lar. O amor é redefinido para além das convenções da poesia romântica.

Não é um amor que reivindica a posse do ser amado, mas um amor incondicional, similar à fé religiosa. É capaz de sofrer abalos e dúvidas, mas em nenhum momento questiona o direito do ser amado de agir como age. Estamos no terreno da paixão, mas da paixão da “morbeza romântica”, em que o amado se vincula à Luz do divino, que resgata o amante das Trevas da solidão e do desejo.  O homem de Real Grandeza não idealiza a amante, mas a adora poeticamente. Waly Salomão, de braços dados com Kierkegaard, nos ensina que se pode amar assim uma mulher, como poucos devem ter feito na música popular brasileira..jards2bmacale2breal2bgrandeza2b-2bcapa

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Em tempo de loucos, meu Machado favorito

Já devo ter publicado aqui, mas nesses tempos em que os cargos na administração pública parecem ser preenchidos por gente beneficiada pelo movimento anti-manicomial, o livro/conto do Machado anda atual como nunca...:

cildo-meireles-zero-cruzeiro-offset-litogravura-sobre-papel-6708O alienista é muito mais que a história das peripécias e frustrações de um médico ao testar teorias sobre a loucura nos habitantes de uma cidadezinha. É exemplar até sob o ponto de vista da teoria literária, exemplo clássico de como é problemático definir o gênero “conto”. Há quem o chame de novela, classificação dos franceses para textos assim, com mais de vinte páginas. E isso nos obriga a, machadianamente, interromper essa resenha para uma pequena digressão sobre a natureza do conto.
Tão clichê quanto citar O alienista como modelo de conto-que-pode-ser-novela-e-vice-versa é lembrar, nessa hora, a ideia de que o conto é o texto que vence o leitor por nocaute, diferente do romance, vencedor por pontos. Julio Cortázar, considerado o autor da definição, lançada numa palestra em Cuba, por volta de 1970, atribuiu a frase a um anônimo “escritor argentino, muito amigo do boxe”.

Essa analogia violenta só vale mesmo para quem entende a leitura como um “combate” entre o texto e o leitor. O próprio Cortázar admite ver, no contista, “um boxeador muy astuto”, que administra cada golpe pensando no efeito derradeiro; mas, para ele, o que faz do conto um conto não é nenhuma pancadaria textual. Não é um embate, é a noção de “limite”, de “economia de meios”, de “corrida contra o relógio”.

Definição por definição, a do Ricardo Piglia, também clichê nesse debate, é mais rica: todo conto apresenta uma história enquanto desenvolve outra, escondida. Piglia, com essa definição, indicou, para mim, algo essencial: paralelamente ao relato aparente do conto, que se concentra em um incidente, um personagem ou um horizonte particular, há, obrigatoriamente, um comentário, uma narrativa, uma descrição que torna mais clara ou saborosa a história principal e amplia ou sofistica nossa visão de mundo.

machado2b132bby2bsergio2bleoNão é um enigma a ser desvendado, mas uma “verdade secreta sob a superfície oculta da vida”. Mal comparando, a breve melodia do conto se faz acompanhar, sempre, de uma harmonia que a sustenta e lhe dá sentido.

Ou seja, a luta do contista não é para derrubar o leitor, mas para envolvê-lo rapidamente e completamente em sua dança. Outro teórico, menos citado nesse ringue, o Merleau-Ponty, compara o jogo entre texto e leitor ao fósforo aceso que, magicamente, incendeia a madeira. No conto, digo eu, não há incêndio romanesco, com focos aqui e ali, mas uma fogueira controlada que queima, juntos, contista e leitor.

Antes que a leitora se enfade e nos troque por algum link mais atraente, passemos, então, ao nosso alienista. Em um tweet, o enredo se resumiria assim: estudioso da loucura tranca quase toda a cidade no hospício, mas solta todo mundo e tranca a si mesmo ao concluir que louco, mesmo, é ele.

Um tweet é pouco para o conto de Machado, como se vê.

O resto desse artigo, AQUI.

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O dia em que me ombreei com Luiz Ruffato.

 

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Na condição de participantes da mesma entrevista, apenas. AQUI.

Quando penso quais escritores contemporâneos sobreviverão ao teste do tempo, o nome desse cara é um dos primeiros que me vêm à mente.

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Um Tarzan para chamar de meu

Faz um ano e meio, participei com gosto dessa coletânea, chamado pelos queridos Henrique Rodrigues e Marcelo Moutinho, com craques como Aldir Blanc e Nei Lopes, amiga/os escritores e muita gente boa.

Agora, meu conto, que transpõe para o mundo de hoje o personagem-título da música “Tarzan, o filho do alfaiate”, do Noel, voou das páginas e foi para a revista eletrônica Gueto, pelas mãos do Ricardo Novaes de Almeida e da Christiane Angelotti.

Pode ser lido, na íntegra, AQUI.

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Reunião dos BRICS, na China, começo da década, encontro esse artista atazanando a moça do boteco. Ao me ver interessado, ganhei esse show.

Mas suspeito até hoje que ele esteja me zoando. Um dia confiro com meu amigo entendedor de mandarim, o Maurício Santoro. Que, provavelmente, me dirá que ele está cantando em cantonês.

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Os batatinhas e os insurgentes

Esse é um texto do meu antigo Sítio, que foi parar em blogues de Moçambique e do Timor, há mais de dez anos. História que continua valendo filme.

Quarta-feira, Janeiro 30, 2008
Eram dois rapazes do Timor Leste, enviados à Indonésia em um momento de distensão da ditadura Suharto, que, antes, simplesmente isolava os timorenses do mundo. Quando os dois rapazes chegaram ao país, estudantes podiam cursar a Universidade, desde que em áreas como agronomia, ou veterinária. Direito, Ciências Sociais, Engenharia, Economia ainda eram tabu para pretendentes timorenses ao ensino superior.
Os dois, universitários, pois, estavam em um supermercado, quando ouviram vozes numa língua familiar, na língua do colonizador que havia se tornado língua da resistência.

O português, por uma das ironias que são privilégio da História, havia se tornado fator de unidade nacional, elemento citado com orgulho pelos timorenses para argumentar que seu povo não se sujeitaria a ser satélite da anglófona Austrália, e era diferente dos que habitavam o arquipélago da Indonésia, sujeitos a uma eficiente ditadura, do agrado dos Estados Unidos e Europa e cruel como só os viventes em um regime ditatorial sabiam ser possível.

Os dois conspiradores timorenses descobriram, pela língua, dois turistas de língua portuguesa, e os seguiram, até um restaurante, onde, após algum tempo de vigilância, decidiram apelar aos irmãos de idioma para fazer chegar seu apelo ao mundo. Não sabiam que os turistas eram brasileiros vivendo em Portugal (circunstância que seria preciosa, como descobriram mais tarde).

Estavam em 1989, ano da queda do muro de Berlim, símbolo do fim da Guerra Fria que acobertou o expansionismo de Suharto, invasor de Timor Leste em 1975, ano da queda do fascismo em Portugal.  O problema dos insurgentes de Timor, país com uma patética população de 200 mil habitantes, era tornar conhecida a reivindicação de independência do povo timorense.

Ao abordarem a dupla de falantes de português, foram saudados com entusiasmo; brasileiros, integrantes de um grupo artístico de relativo sucesso chamado “Os Batatinhas”, eles ficaram encantados em ser abordados na língua materna, ainda que seus interlocutores falassem com alguma dificuldade. Um deles, como muitos em Timor, havia aprendido português na escola secundária e relegado a língua ao mesmo porão cinzento onde costumamos largar os conhecimentos impostos e inúteis.
Era a língua da resistência, sim, mas, como os insurgentes, sofria um bocado para ter direito a um lugar seu, naquele canto da Ásia.
Com ligeira relutância e muita solidariedade, Os Batatinhas gravaram, com equipamento de turista, os manifestos de 14 insurgentes timorenses, inclusive os dois que os haviam abordado no supermercado. Um deles pedia armas para a guerra contra a Indonésia. Outros falavam da repressão e das esperanças em Timor.

Ao voltarem a Portugal, Os Batatinhas entregaram a fita na RTP, a brava TV estatal portuguesa, e desencadearam uma saraivada de reportagens sobre os irmãos de língua portuguesa que ambicionavam a independência no Sudeste Asiático.

Tenho dúvidas sobre o que aconteceria com esse vídeo se chegasse a alguma TV comercial brasileira. Sei que muito possivelmente não despertaria a repercussão que causou em Portugal.
A diáspora timorense passou a se articular. As Embaixadas do Brasil e Portugal na Indonésia se tornaram pontos seguros para os conspiradores. Dez anos depois, Timor era um país livre, motivo até de um belo documentário da eterna escrava Isaura, a minha, a sua, a nossa Lucélia Santos.
O ditador Suharto, por coincidência, morreu na mesma semana em que os timorenses fizeram brindes emocionados com Lula, em Brasília, em almoço no Palácio do Itamaraty, no qual me sentei à mesa com um deles e ouvi a história.
“Não sei como se chamavam Os Batatinhas, sei que um era João, o outro Fonseca”, me disse, no convescote palaciano, o hoje assessor de assuntos internacionais da presidência do Timor, José Turquel de Jesus, insurgente que, em 1989, pedia armas, no vídeo dos Batatinhas. Ele me disse que tentou encontrá-los, anos depois, mas sem sucesso. A poucos metros, à mesa com Lula e o presidente timorense, José Ramos Horta, estava a Lucélia, com quem eu puxei uma conversa simpática e de tiete, ao chegar para o convescote. Simpaticíssima. Budista da linha tibetana.
Pouco tempo depois, acabava o almoço, e nem pude contar à Lucélia, que continua uma gracinha, do grande tema de um novo filme que ela poderia tramar, com a história que o doutor Turquel de Jesus me contou enquanto eu brigava com a sola de sapato que o Itamaraty comprou em licitação como filé mignon. O almoço acabava, os repórteres convidados assanhavam-se, que remédio: parti com a tropa para cenas de jornalismo explícito com o Lula.
Algumas das melhores matérias são as que não temos condição de escrever. Um dia alguém há de fazer livro sobre os conspiradores de Timor. A Lucélia, quem sabe, pode dar uma dica de como transformá-lo em filme; pode ser até que reencontrem os Batatinhas.

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No restaurante (I)

Ah, as mesas coladas dos restaurantes de São Paulo…
Noite dessas, minha pizza marguerita no Fração de Pizza teve como fundo sonoro duas moças ao lado trocando ideias sobre as DST que já haviam experimentado. Hoje, a conversa é estilo Faria Lima.  Resultado de imagem para miles davis
“Ah mas foi um tesão, uma novela; adorei fazer aquela operação, foi a negociação da minha vida, tive a confiança do Vasconcelos, conquistei a da Monica, eles nunca tinham pensado em fazer um cap de juros…”
“Amor, a gente estava começando a ficar e você não me falava dessa operação”
“Foi um produto que ninguém nunca tinha pensado, tá ligada?”

 

E a tartine de chèvre que eu pedi nesse Le Jazz Bistrô, que não chega…

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