Deixai vir a mim as criancinhas

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Entendo as pessoas cujos pais foram bem sucedidos em criá-las em um ambiente asséptico e assexuado na infância (embora suspeite que essas sejam uma assombrosa minoria). Mas quando vejo gente como a mãe que acaba de passar na TV, vangloriando-se de vigiar a filha na Internet com empenho de carcereiro, controle de senhas e patrulha diária, tenho pena.

O que a filha dessa moça está aprendendo é que, nesse mundo de wi-fis e acesso livre à Internet, quando ela encontrar algo que a choque ou intrigue ou assuste _ e vai encontrar _ a última pessoa a procurar para ter orientação é a mãe. Porque da mãe só vai receber repressão e medo.

Ilusão imaginar que a infância será essa utopia construída pelo mundo moralista _ e devidamente avacalhada por aquele velho tarado e pedófilo aí da foto. Isolar a criança do mundo não é solução. Acompanhá-la, protegê-la com racionalidade, permitir que veja e conheça o que verá e conhecerá de qualquer modo, mas mostrando que os pais são uma referência para compreender essas experiências: ensiná-la a entender e diferenciar o que é saudável e o que é doentio, essa é a forma de proteger a infância.

Censura e pavor de “expor”a criança é apenas uma ilusão aberta às frustrações _ e a manipulações de aproveitadores e desonestos, como o político safado que discursa na tribuna em nome da família, ou o grupo de moleques oportunistas que adota discurso indignado só para conquistar o voto e a alma conservadora de gente ignorante.

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Boçais, perplexos e banais

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A boçalidade dos que fecharam uma exposição de arte teve um efeito colateral: liberou também gente sensível e inteligente para desabafar sobre o próprio desconforto com o hermetismo da arte contemporânea.

E, nas redes sociais, haja republicação de matéria sobre o sujeito que botou os óculos no chão e fez um monte de gente achar que era uma obra; dos carinhas que meteram um abacaxi numa mesa de uma exposição e alguém que cuidava da mostra até o protegeu com uma redoma de vidro; da faxineira que varreu uma instalação, pensando ser o resto de uma festa ..

O difícil de perceber, às vezes, é que é isso mesmo: o apreciador da arte contemporânea, o legítimo, de raiz, é alguém disposto a procurar sentido até na banalidade; a escapar do pragmatismo e da especialização que esterilizam as relações humanas, dar um breque e se dedicar a entender novas _ às vezes repulsivas, ou chocantes, ou ridículas _ formas de expressão e modelos muito originais de interpretação da realidade; a viajar na viagem do outro e a rir (ou, pelo menos, duvidar) de si mesmo. A imaginar que uns óculos no chão ou um abacaxi na vitrine podem merecer um olhar de atenção e curiosidade, se foram colocados onde estão por alguém disposto a provocar uma reação emocional ou intelectual ou despertar uma reflexão que pode valer a pena.

Há, ainda, é verdade, um mundo do comércio e construção de reputações, com critérios alheios à arte, que impulsiona e promove determinados artistas. Há considerações políticas, como as que levaram os órgãos de inteligência americanos a promover artistas esquerdistas do expressionismo abstrato, durante a Guerra Fria, só para dizer ao mundo como a liberdade da democracia americana era superior ao comunismo do realismo socialista soviético. Os próprios artistas tratam disso, e os críticos discutem esses aspectos alienígenas, que podem acabar ajudando a levantar carreiras de legítimos artistas ou promovendo quem não merece.

E sempre haverá, também, as pegadinhas dos gaiatos dispostos a ridicularizar o que não entendem, claro. Mas esses se confundirão com os outros milhões de gaiatos dissolvidos na história da humanidade.

hitlercritico

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Da série: a última do português I

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Possuir, em lugar de ter. Utilizar em vez de usar. Essa mania viciosa de abandonar as palavras simples para aparentar sofisticação virou praga na academia e na imprensa, e é um dos alvos do trabalho inclemente da Sergio Leo Foundation, a principal organização mundial em defesa do leitor.

Agora, por exemplo, nosso CEO*, Oliveira, o canalha da redação, acaba de se deparar com um texto (certamente de denúncia) onde empresas de um determinado setor “possuem clientes”.

“Vamos investigar se é um caso de abuso sexual”, avisa Oliveira, enquanto tira o terno do encosto da cadeira e checa com nosso departamento de transportes para ver se o Uber não aderiu à greve geral.

 

 

*(O amigo Nélson Franco Jobim implica com o cargo de Oliveira que, defende ele, por coerência com a missão de nossa ONG, deveria ser “diretor-geral”, “diretor-executivo”ou algo do gênero grafado na língua de Machado, Eça e Paulo Coelho. Tem suas razões, ele. Mas motivos de planejamento tributário e arrecadação de fundos nos obrigam a manter um organograma em inglês e uma sede em Washington, onde esperamos, um dia, comover algum alto funcionário do Banco Interamericano de Desenvolvimento com poder de liberar uma linha de financiamento para nosso trabalho humanitário-semiológico).

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Senta, que ele chegou. O sommelier de caderno literário.

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Bela, muito bela, a idéia do Maurício Meirelles, na Folha, de ir ao subúrbio para mostrar como sobrevive o Rio de Lima Barreto. E de começar o artigo com um saborosíssimo lead literário. Uma delícia. Tem um ou outro parágrafo que mereceria ficar mais tempo no decanter para respirar, mas, no geral, o retrogosto é suave, com tons cítricos e agradável persistência no palato. A foto é mais bem aproveitada que nO Globo, que reproduziu a mesma imagem de Lima, único negro na formatura da Politécnica, único olhando tudo de lado, como nota a legenda da Folha. Já a crítica do Antônio Risério que acompanha a matéria é meio amarga, tem notas de implicância com o bom mocismo politicamente correto da Lilia Schwarcz na biografia do Lima, e parece mais apropriada ao gosto dos tradicionalistas com apetite por crítica literária aderente à estrutura dos textos, sem muitas concessões gustativas ao contexto socio-antropológico dos autores.
O Leo Cazes, nO Globo, vai mais no estilo merlot, um bouquet familiar e um surpreendente toque de angústia, sobre a relação entre Lima e o “racismo científico”da época. De estalar a língua. O resultado final é de sabor redondo e bem encorpado, com textura complexa e muito densa.
No Estadão, a melhor foto da Lilia, não só porque ela está bem bonitinha na imagem, mas pela galeria de obras em papel atrás, que adorei. O Ubiratan Brasil optou pelo convencionalismo de um cabernet sauvignon, correto, com elogios à historiadora, uma descrição do livro que desperta curiosidade e uma entrevista convencional mas com evolações de grande espírito, que acabam trazendo ao paladar sabores não explorados nas outras matérias, como detalhes de certas facetas “do contra” de Lima Barreto, explicações sobre sua rivalidade com Machado de Assis e o fato de jogar no meu time, o dos que detestam futebol.
Enfim, recomendo a degustação dos três, que harmonizam muito bem com esse sabadão preguiçoso de sol e frio.
Aqui, a da Folha.

Aqui,  dO Globo.

Aqui, do Estadão.

E viva a Joselia Aguiar, que meteu o Lima na Flip e certamente inspirou essa profusão inebriante de notícias recentes sobre o sujeito.

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Bombando nos jornais

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Um evento que não se notava há algum tempo foi registrado hoje pela Sergio Leo Foundation, entidade de defesa dos direitos do leitor: segundo informou grande jornal de alcance nacional, na edição de hoje, a notícia de um fato surpreendente “caiu como uma bomba”.
Já houve tempos em que essas bombas caiam com tanta frequência que Oliveira, o canalha da redação e CEO da SL Foundation, temia pela sobrevivência da espécie, principalmente as espécies política e a administrativa. Consulta feita pelos estatísticos da instituição, nesta manhã, identifica pouco mais de 71 mil ocorrências no Google para a expressão “caiu como uma bomba”, resultado que mostra a persistência, no país, de um conflito de porte médio, geo-referenciado pelos departamentos de lugares comuns das principais organizações jornalísticas.
Os últimos bombardeios mostravam forte potencial explosivo no arsenal armazenado pelo Judiciário, com o insólito e frequente registro de várias listas (“do Janot“, “de Fachin“) caindo como petardos na capital federal.

A mais recente queda de artefato bélico, segundo informa Oliveira com base na leitura de hoje, teria ocorrido em Moscou, aos pés da comitiva do presidente da República do Brasil, e estaria relacionada com botões que teriam sido apertados por uma comissão do Senado Federal.
“Isso significa que a tecnologia nacional já está habilitada a usar mísseis de longo alcance e não poupa nem as grandes potências mundiais; isso não vai terminar bem”, ponderou Oliveira, que advoga pelo desarmamento dos operadores de clichê nas organizações jornalísticas brasileiras.
P.S.: A Sergio Leo Foundation acaba de receber informes contraditórios, pela TV. Segundo comentário abalizado em programa matutino, a ação bélica no Senado apenas “acendeu uma luz amarela”. Oliveira, o canalha da redação e CEO de nossa querida instituição em defesa do leitor, já acostumado a essa vigilância jornalística nos semáforos do país, acredita que possa ter havido um curto circuito.
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geografia da desaparição

indio paulista

São Paulo, cheio de índios

,teve de matá-los para dar nome às ruas

troféu-logradouro

exibido aos jipes do safári urbano

São Paulo enterrou seus rios

que hoje correm nas sarjetas

das veias sujas da pobreza urbana

Onde os novindígenas de São Paulo

vivem da caça e coleta

de  esmola

e belas latas

de alumínio reluzente.

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O Brexit, em um scketch

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