Pokemon Go, Janet Cardiff e a realidade diminuída

Há quatro anos, na 13º Documenta de Kassel, a artista Janett Cardiff, uma das estrelas da coleção  de Inhotim, botava no chinelo o Pokemon Go. Que, claro, não existia ainda nem como ideia, mas começaria a ser criado dois anos depois.

Os visitantes da estação de trem do centro da cidade, a Alter Banhof, recebiam um smartphone, com um filme gravado na própria estação, e fones de ouvido esterofônicos de altíssima qualidade, que tapavam o som exterior, presente, e o trocavam por instruções gravadas pela artista e som ambiente capturado durante a gravação. A um dado momento, seguindo estação adentro o roteiro indicado pela artista, telefone na mão, olhos no aparelho, você começava a se confundir: o som ligado ao que passava na telinha do smartphone fazia a experiência  gravada parecer  tão real e atual quanto as que você vivia, de fato, naquele momento, sob a mesma arquitetura.

Coincidências _ uma criança bailando na tela na mesma hora em que outra criança passava, aleatória, à sua frente; um som gravado que se encaixava na cena vista naquele momento, fora do celular _ davam a tudo um caráter de sonho, e de mágica. A vida se desdobrava em cenas que ocupavam simultaneamente o mesmo espaço, mostrando como é uma coleção de acasos, cheia de possibilidades e histórias paralelas.

Isso, sim, é o que se pode chamar de realidade aumentada.

Neste 2016, somos apresentados a um joguinho de celular, usando potencialidades do smartphone e dos mapas interativos com que a Cardiff nem sonhava. E o jogo vira uma febre, cujo prazer, pelo que entendi, consiste em catar, ao redor, personagens virtuais, para capturá-los com o telefone.

Como diz o artigo da New Yorker no link acima, o Pokemon Go pode motivar as pessoas a cobrar da tecnologia modos mais sofisticados de ter informações sobre o mundo que nos rodeia; mas, por enquanto, o que vejo é um jogo de transformar o mundo real em mero pano de fundo. E, evidentemente, o uso da atividade lúdica como um apelo a mais no esforço de uma empresa comercial para se manter lucrativa e capturar informações, não de personagens virtuais, mas de consumidores. Afinal, o maior negócio e as maiores fortunas de hoje são construídos em torno da comercialização de informações sobre as pessoas, para melhor enredá-las na malha do consumo. A alienação é tamanha que o Museu do Holocausto se viu obrigado a dizer que ali não era lugar para caça de bichinho digital.

Isso não é realidade aumentada. É o real cada vez mais condenado a um só aspecto da experiência humana.

 

(Se você clicou no link sobre Inhotim, talvez se interesse em ver mais sobre a obra “Forty Part Motet” e outras da mesma artista, AQUI.)

Falando em coincidências, a força bizarra da realidade: a Alter Banhof foi uma estação de onde partiram milhares de judeus enviados a campos de concentração, história horrenda que a Cardiff desconhecia quando decidiu gravar seu trabalho para a Documenta lá. Uma das paradas do roteiro gravado, porém, é um singelo memorial num canto discreto da estação, dedicado às pessoas enviadas para a morte: uma vitrine com pedras envolvidas por cartas escritas por crianças das escolas locais, endereçadas às vítimas que partiram por ali. Minha companheira, cujo nome, Marta Salomon, evoca longínquas raízes de uma família que hoje tem pouco de judia, com padres milagreiros em sua história e até uma lama budista, quis voltar ao memorial, depois que devolvemos os smartphones ao pessoal da Documenta.

E, ao baixarmos os olhos para as cartas, nos deparamos com essa aqui:

MartaKassel

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Heaven on Earth

A história desse conto é triste. Não o enredo, a história da produção do texto mesmo, parte de um projeto que resultou em conflito entre o editor e os participantes, deu briga, prefiro esquecer. Mas gerou uma das poucas versões em inglês de um texto meu, e, como o site não é eterno, reproduzo aqui, roubando inclusive a bela ilustração do Marcelo Damm:

 

The second syllable explodes in my mouth, the third slips off the tongue and tickles my teeth, the fourth languidly brings the name to my lips: I-pa-ne-ma. I would lie in bed in the damp cold of the countryside, hands behind my head, eyes fixed on the ceiling, wanting with all my being to embrace the beaches, bars and heat. Lost amidst long-forgotten cane fields and plantations, up in the north of Rio de Janeiro state, I imagined being caressed by streets with names like imaginary lovers. Joana. Angélica. Maria Quitéria. Farme de Amoedo.

I thought Farme was a woman’s name then.

Muse of countless writers, filmmakers, actors, millionaires, drunks and musicians – Ipanema. I read a lot about Ipanema. I devoured any news story, book or alternative magazines that mentioned Ipanema, that brought it to me, brought me to Rio. I was a long way from the coast, but I felt close to Ipanema. Nevertheless, when I finally encountered the place for the first time, in the summer of 1983, I still wasn’t prepared.

I found myself in neighbouring Copacabana, on Rua Rainha Elizabeth, in a friend’s apartment, the owner of a shoe shop. I was looking for work to pay my way, and to pay off the debts I’d amassed in an unsuccessful printing venture. I’d copied English words out of glossy magazines and stamped them onto cotton T-shirts. I’d brought the remainder of the stock to Rio with me and had managed to sell a few, in between mending high-heels and insoles. The most successful T-shirt featured the name of a trade union, Solidarity, printed over a map of Bolivia, which I’d labelled ‘Poland’, and told customers really was Poland. Solidarity was in fashion, and it happens that the map of Bolivia was the one that best fit the printing screen.

My friend agreed to pay me a little pocket money for doing shoe repairs. With my basic needs taken care of, I was close, very close, to finally discovering Ipanema. I could smell it. The morning perfume of bikini-clad girls, bright-coloured sarongs brushing against their skin as they swayed past, unconcerned by the holes in the Portuguese paving. The smell of bronzing lotion or sun cream on the men.

It was a straight line from the building on Rainha Elizabeth to the beach. When I reached the sand, I turned right, seeking the shade of the pavement. I walked as far as the lifeguard station at Posto 8, then went onto the sand, running to the darkest part, the part licked by the sea. I then followed the line of the wash, passing the stretch in front of Farme, which was easily recognisable due to the sudden concentration of voluptuous, muscly men, as far as Posto 9, my final destination.

The printed T-shirts were my Rio calling card. Cariocas bought them and recognised me the next time they saw me, inviting me to sit down on the sand with them. I blended in with old acquaintances and newer friends, those recently incorporated into a group that was always growing and changing shape. Groups of various tribes assembled on the beach, different people coming and going. I found myself hanging out with people I’d only just met, sharing glasses of beer, light-hearted conversation.

“You’re Taurus, I could tell right away, you’ve got that down-to-earth Taurus kindness!”

“Actually I’m Aquarius. But that I swear I can be very kind.”

Rio’s voices, its perfumes, its accents, its many-coloured bikinis, all became familiar to me on that beach of well-being. I dedicated Saturdays and Sundays to my romance with Ipanema. It was a romance based on sun, dips in the cold water, simple pleasures, silences and casual conversations. I comforted an artist whose flip-flop I’d mended and who was depressed because her teacher at Parque Lage said her taste for beads was tacky; I suggested lyrics to an alternative musician who shunned the mainstream; I was given the basics on Cinema Novo from a guy who taught in the Cinemateca at the Modern Art Museum; I got lessons in literary criticism from a poet who published his work in photocopied booklets; I was invited to join an amateur theatre group by a girl looking for a wild actor.

Walking barefoot on the hot Rio soil was the easy part of embracing Carioca life. The hard part was having to go to the beach in my thick-lensed glasses. I learned to ask one of my new friends to look after my specs whenever the sun tempted me into the cool Ipanema waters. I’d then use the lifeguard lookout as my point of reference when I emerged from the sea and had to pick out my beach tribe from all the others, find them amongst the out-of-focus, colourful masses. On one such occasion, I came out of the water, trembling with cold, and found my tribe was still there, but not the dark girl in the blue bikini I’d appointed guardian of my glasses, my indispensable compass.

I began a desperate investigation into who had betrayed my ocular trust. Question by question, I found my way to an apartment building five blocks from the beach. I explained who I was to the doorman, got in the lift and pressed my nose up against the panel of buttons, trying to figure out which one corresponded to the sight-abductor’s floor. I had to stand on the tips of my toes to read the numbers on the doors. Finally I reached the dark girl’s apartment. Another squinting sweep of my weak eyes and I found the doorbell. I pressed it, anxious. She came smiling to the door, wrapped in a towel, her hair wet from the shower, my thick lenses held hostage in her right hand. She gave me a warm kiss on each cheek.

I never saw her again. Sometimes the city swallows its peoples, sometimes it returns them for a few minutes, glimpsed at a party, on a pavement somewhere. From then on, I decided not to take my glasses to the beach. Guided by my short-sightedness, a few weeks later I decided to change my usual route home from the beach. “This beach is heaven on earth”, I was once told by a filmmaker, who I used to buy a few beers for in exchange for a little insight on Glauber Rocha. I set off, walking in the clouds.

In the street with the poet’s name, on the corner near the bar where I always turned right, I went straight on. Instead of encountering Copacabana, as I expected, I came to a halt in front of a huge avenue that seemed to me to be like an expanse of sea, albeit with different reflections to the ones my blurred vision usually painted on the Carioca ocean. On the horizon, mountains. Lost and out of focus, I could move no further forward; I hadn’t even an inkling that I was actually before Lagoa Rodrigo de Freitas. I turned around, disorientated, frustrated and hungry, and headed back to the beach I’d just left. On my way back there, I tripped over a stone, come loose from the Portuguese paving. Betrayed by Ipanema.

Betrayed by her. Ipanema promised me heaven on earth, like the filmmaker’s cliched promise. But it was warning me it couldn’t be won so easily.

Translated from portuguese by Jethro Soutar

 

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Confissões de um informante das potências estrangeiras

Sim, confesso. Atuei, por muitos anos, como informante das embaixadas dos EUA, da União Europeia, da Grã Bretanha, da França, da Itália, da Alemanha, da Áustria, da Bélgica, da Venezuela, da Argentina, da Bolívia, do Chile, do Uruguai, da Rússia… Tem até referência a mim no Wikileaks, conversas pouco interessantes que tive com autoridades dos Estados Unidos (nas quais, aliás, não reproduziram críticas que fiz à então candidata Dilma Rousseff; nem me levaram a sério nisso). Fosse eu importante, quem sabe o Wikileaks e gente desinformada por ele estaria distribuindo acusações sobre meu entreguismo às potências estrangeiras.

Nos cerca de 15 anos em que trabalhei no Valor Econômico, cobrindo principalmente política externa e política industrial, fui convidado com frequência a falar para diplomatas, autoridades, acadêmicos e outros visitantes desses países, com quem troquei ideias sobre o Brasil e sua relação com o mundo. Às vezes, as perguntas que me faziam eram mais reveladoras que quaisquer observações que eu pudesse fazer; chamavam atenção para detalhes e singularidades de meu próprio país para as quais eu jamais tinha prestado atenção.

Por essa experiência, fico uma arara quando vejo espalharem acusações mal informadas nas redes sociais especialmente a interlocutores  dos EUA, como traidores da pátria, por terem falado com diplomatas norte-americanos em conversas relatadas por telegramas vazados no wikileaks. Tratar essas conversas como denúncia sobre existência de “informantes” dos EUA é coisa de quem não digeriu as leituras de romances da Guerra Fria.

É função da diplomacia falar com autoridades, jornalistas, analistas, quem contribuir para aumentar o conhecimento sobre o país em que atuam.

É função das autoridades buscar aproximação com atores relevantes e países amigos _ e, acredite, oficialmente o Brasil não está em guerra com os EUA, nem esteve na gestão do PT, pelo contrário.

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Os telegramas do wikileaks, que o próprio wikileaks tenta vender como escândalo envolvendo Temer, mostram conversas comuns, típicas desse tipo de encontro (dos quais, repito, já participei, como jornalista que cobre relações exteriores _ que me valeram até uns dois telegramas com meu nome no wikileaks, aviso logo, entrego o jogo todo).
Temer tem muito o que ser criticado. Isso de “informante”, porém, é esquerdismo infantil, me desculpem se soo ofensivo. São de uma redundância acaciana as conversas de Temer sobre o PMDB vazadas pelo wikileaks, que o UOL, num exemplo de preguiça e mau jornalismo, reproduz dando como lead, sem nenhuma crítica, o esforço de divulgar os telegramas como afronta à patria amada.
Como exemplo do que falo, leiam os seguintes telegramas (basta clicar nos parágrafos abaixo)  e imaginem o escarcéu que se estaria fazendo, se os interlocutores/”informantes” dos EUA fossem tucanos ou Temer, e não Zé Dirceu e Genoíno. Estão lá, falando aos estadunidenses amigos, de encontros com o NSA, apoio à Alca, esforço para “moderar” Chávez, e, traição das traições, abertura para investimentos das empresas dos EUA na infra-estrutura nacional:

Aqui, Genoíno fala do apoio de José Dirceu à Alca, numa viagem “produtiva” em que mostrou interesse em estreittar relações com Washington, conversou com o NSA e falou sobre exercer influência moderadora sobre Hugo Chávez. 

Aqui, no primeiro encontro com o embaixador americano, Dirceu fala do interesse em abrir a infra-estrutura brasileira ao capital norte-americano, revela informações sobre a política nuclear e fala das dificuldades do governo Lula. 

Aqui, Dirceu, na condição de principal conselheiro político  fala a diplomatas na embaixada sobre reuniões secretas de Lula e Chávez para baixar a bola do venezuelano e promete ações para destravar as negociações da Alca. 

Até confessar aos americanos o uso de caixa 2 pelo PT Dirceu confessou, para se ter ideia do que se discute nesses papos de “informante”:

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O spin doctor e a política externa dos EUA

Ao lado de Obama, um brilhante aspirante a escritor ajudou a criar a “narrativa” de sua política externa, aproveitando-se de uma rede de contatos na imprensa e da crise da midia que rebaixou redações e tornou os órgãos de comunicação mais dependentes das fontes. O spin doctor aproveitou-se também de uma interessante característica do próprio Obama, sua experiência quando criança na Indonésia, onde pôde ver as _ más _ consequências das políticas dos países desenvolvidos sobre o mundo em desenvolvimento.

Essa história, e o relato de como Obama e seu assessor venderam à sociedade americana o acordo com o Irã _ peça importante da estratégia de Obama voltada ao recuo da presença dos EUA no Oriente Médio _ está num texto que tem tudo para tornar-se clássico na bibliografia sobre EUA, política externa, governo e comunicação. É uma reportagem da New York Times Magazine, um tanto benevolente com o personagem principal, o tal assessor, Ben Rhodes, sujeito de mente ágil, ego inflado, tremendo desprezo pelo establishment de política externa dos EUA (desprezo compartilhado por Obama, que rejeita o modelo tradicional de intervencionismo americano)  e enorme proximidade com o presidente dos Estados Unidos.  A matéria está AQUI.

A reportagem gerou reações iradas dos jornalistas de Washington, que saem bem mal pintados na foto. Reações divertidas, para quem as lê, de fora, e ajudam a apontar alguns exageros e defeitos da reportagem do Times, sem comprometer a veracidade do excelente material, que expõe um bastidor antes apenas imaginado, com uma franqueza impressionante.

No Washington Post, a bronca foi essa AQUI.

E na Foreign Affairs, a irritação foi tamanha que trocaram a qualificação do Times para Rhodes como guru de Obama nos assuntos internacionais, de “Aspiring Novelist” para “Asshole”. Bile pura. AQUI.

Ah, e o Post aproveitou para dizer que, com suas declarações, o assessor acabou contando que Obama enganou o povo em relação às longas negociações com o Irã, para plantar a versão mais palatável de que ela só ocorreu para aproveitar a chegada de um grupo de líderes iranianos mais moderados a postos-chave do país. O próprio Obama não acreditaria nisso de moderação e pretendia fazer acordo com o Irã mesmo antes das mudanças políticas por lá, por considerá-lo essencial ao descolamento de sua aliança disfuncional com a ditadura saudita. (Isso de ditadura é acréscimo meu. Nenhum dos textos chama a monarquia saudita de ditadura, como é de fato, assim como a imprensa brasileira também não chama. Afinal, ditaduras só são as que servem de referência a alguma esquerda, não é mesmo?)

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Viralata de verdade gosta de jabuticaba

Uma coluna minha, no Valor, de 2012.  Ainda vale. Pura vira-latice:

“Existe só no Brasil e não é jabuticaba? Não presta”. Poucos ditados concentram tão bem, em mensagem tão convincente, uma ideia tão equivocada.
Oscar Niemeyer é uma jabuticaba arquitetônica. O Bolsa Família é jabuticabalmente admirado e copiado pelas instituições internacionais que lidam com pobreza. A agilidade do sistema financeiro brasileiro, jabuticanabolizada pela sobrevivência à hiperinflação, não tem igual no mundo. O Plano Real, baseado em experiências internacionais e aclimatado para o solo brasileiro, foi uma jabuticabeira providencial, que rende frutos até hoje.
O ditado da jabuticaba é uma versão pouco frutuosa do que o economista Albert Hirschman, baseado em sua experiência como consultor internacional, especialmente na América Latina, chamava de “fracassomania”: a incapacidade de ver os méritos nas adaptações e soluções locais, o pessimismo em relação às políticas – inclusive os aperfeiçoamentos incrementais e heterodoxos do capitalismo. Fernando Henrique    Cardoso, amigo e admirador de Hirschman (como, aliás, José Serra), foi um dos que popularizam o termo fracassomania (que, curiosamente, Hirschman aplicou também a certos aspectos da teoria cardosiana da dependência).vira-lata
Complexo de vira-lata não é um problema do Brasil
Hirschman desenvolveu sua tese a partir de outra expressão, em francês, também sacada da experiência em países em desenvolvimento: “la rage de vouloir conclure“, a raiva de querer concluir: governos, economistas, especialistas, na ânsia de soluções e na pressa de terminar obras, inclinam-se pela aplicação dogmática de fórmulas já prontas e testadas em algum outro lugar, de preferência em países comprovadamente bem-sucedidos – sem notar que a receita de sucesso de um pode ser o caminho para o fracasso de outro, sujeito a condições diferentes.
A insistência em apontar as dificuldades e não reconhecer os avanços, ainda que incipientes ou insuficientes, está na raiz da fracassomania, como se queixava Fernando Henrique – que, porém, usou o termo equivocadamente ao defender, contra os críticos, a política de dólar desvalorizado dos anos 90. Ao rejeitar políticas originais e inovadoras como fatalmente ineficazes e destinadas ao fracasso, a ortodoxia, à direita e à esquerda, parece ignorar que situações inéditas podem exigir ações também singulares.
Não cabem metáforas de jabuticaba para analisar soluções e problemas que frutificaram por aqui. A emergência dos tais 40 milhões de novos integrantes da classe média, por exemplo, impulsionada por aumentos reais no salário mínimo e extensão da rede de proteção social, que foram possíveis devido a condições favoráveis no país e no mercado externo, trouxe ao Brasil novos padrões de consumo e poupança, ainda não inteiramente compreendidos. Essa jabuticaba merece mais que as preguiçosas avaliações sobre o esgotamento iminente do crescimento baseado no consumo.
Também faltam “jabuticabólogos” para orientar a excepcional situação do Brasil no cenário de comércio internacional, como grande produtor e exportador de commodities agrícolas e minerais, e portador, ao mesmo tempo, de um vigoroso mercado interno e uma complexa e diversificada estrutura industrial.
A ideia de partir para a liberalização da economia com a derrubada de barreiras a importados não encontra solo fértil em um país tão sensível aos lobbies industriais; mas a aplicação sem nuances de exigências de conteúdo nacional e de novas barreiras aos importados também entra em choque com um mundo de produção internacionalizada e pressão global por acordos de livre comércio, especialmente nas economias dinâmicas da Ásia.
Fazem falta no debate público vozes originais e tropicalizadas, como a do economista Antônio Barros de Castro, um dos primeiros a apontar a necessidade de uma estratégia mais sofisticada para lidar com o fortalecimento da China e com bilhetes premiados do Brasil, como as reservas do pré-sal, para as quais ele defendia uma política de exploração controlada, sem a urgência dos interessados em rentabilidade imediata.
A tese da fracassomania, que rejeita a singularidade da jabuticaba, se liga a outro clichê nacional equivocado: o complexo de vira-lata, diagnosticado pelo escritor Nelson Rodrigues para descrever a baixa auto-estima do brasileiro quando confrontado com o resto do mundo. Apesar do pedigree literário, essa é outra metáfora infeliz; Nelson Rodrigues estava correto ao criticar o narcisismo “às avessas” do brasileiro que “cospe em sua própria imagem”; mas errou ao eleger o malandro vira-lata como termo de comparação.
No imaginário popular, o mais conhecido vira-lata é um personagem de desenho animado, a quem Walt Disney deu independência e autoconfiança invejáveis. Disso entendem os Estados Unidos, que sempre louvaram suas jabuticabas, a ponto de transformar em ponto de honra a “excepcionalidade americana”.
O vira-lata, mestiço e sem dono, não conhece limites, adapta-se às circunstâncias, sobrevive mesmo em condições precárias e reage às ameaças com sabedoria. Não merece ser comparado aos que, fracassomaníacos, desconfiam da própria capacidade de evitar os becos sem saída.
Quem se submete às vontades alheias, tem campo de ação regulado e costuma trocar a criatividade por truques ensinados pelo dono, são os cães de raça – todos, aliás, descendentes de vira-latas, resultado de gerações de cruzamentos para eliminar o inesperado e consolidar certas características especializadas.
Os cães de raça sempre serão úteis. Confiáveis, executam bem as ordens que recebem. Mas são os vira-latas que, na balbúrdia da rua, podem descobrir os melhores caminhos, com a autoconfiança que lhes garante a sobrevivência. Desde, é claro, que se livrem da coleira.
Nelson Rodrigues estava errado. O problema do Brasil não é o complexo de vira-lata. São os vira-latas complexados.

 

(fonte da foto – estopinha: https://www.facebook.com/estopinha/photos/pb.231375193562696.-2207520000.1423069177./972890312744510/?type=3&theater )

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O espião que saiu do livro – ou vice-versa

spy_vs_spy___the_laptop_by_cluny91-d6s5rquEspionagem é uma profissão bem adequada aos escritores. Ou seria o contrário? Nessa matéria da Economist, que traduzirei quando tiver tempo, histórias sobre como até a incensada Paris Review surgiu da necessidade de vigiar os inimigos na Guerra Fria:

“CHAMPAGNE, if you are seeking the truth, is better than a lie detector,” Graham Greene (pictured above) wrote in “Ways of Escape” (1980). “It encourages a man to be expansive, even reckless, while lie detectors are only a challenge to tell lies more successfully.” Greene sought the truth in the people around him for the sake of his writing, but one can’t read this reflection without wondering how it was informed by his involvement in another kind of lie detecting. When he wasn’t writing (and sometimes when he was), Greene worked as an agent for MI6, the British intelligence service. 

Greene was recruited in 1941, after he had already established his career as a writer. It was a credible cover for intelligence gathering and his penchant for traveling to certain significant regions for his novels—Liberia, Mexico, Haiti, Cuba, Vietnam—made him a valuable informant. Spying had the added perk of offering Greene intriguing material. Some of his books, like “Our Man in Havana” (1958) and “The Quiet American” (1955), feature spies directly, but the relationship between writing and spying goes deeper and is more intriguing. 

Greene, who died 25 years ago this month, was by no means the first novelist to experiment with espionage. When Cambridge hesitated to award Christopher Marlowe his degree due to frequent absences, Queen Elizabeth I’s Privy Council explained that he was working “on matters touching the benefit of his country.” Marlowe is thought to have been recruited by Sir Francis Walsingham, Elizabeth’s spymaster. He died under mysterious circumstances at age 29, stabbed in a tavern brawl in the company of other Walsingham acquaintances. 

Ian Fleming and John Le Carré’s careers in British intelligence are well known, but less obvious figures were recruited too. Roald Dahl served as a spy from Washington. Peter Matthiessen joined the CIA out of Yale. The Paris Review, an esteemed literary magazine, was born—somewhat scandalously—out of Matthiessen’s intelligence duties: “I needed more cover for my nefarious activities, the worst of which was the unpleasant task of checking on certain Americans in Paris to see what they were up to. My cover, officially, was my first novel, but my contact man… had said, ‘Anything else you can do while you’re here?’” 

O resto, sugiro fortemente ler AQUI.

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A arte, onde a ciência a vê

Uma das belezas da arte é sua inutilidade. Não serve para nada _ às vezes, nem para apreciação estética.

Mas, como já ouvi ouvi do Charles Watson: a arte traz respostas a perguntas que ainda nem foram feitas.

Os cientistas do M.I.T sabem, e vêm se aproveitando disso. Belíssimo projeto, aliás, esse do Vic Muniz, com os caras:

vikareia

As a graduate student at the respected M.I.T. Media Lab, Marcelo Coelho collaborated with the artist Vik Muniz to help him achieve a poetic and technical feat that teases the imagination: drawing a picture of a castle on a single grain of sand. After two years of failed experiments with various lasers, they finally began getting images of beautiful complexity using an electron microscope with a focused ion beam to etch superfine lines—when it didn’t pulverize the grains altogether. The tiny etchings could then be scanned and printed large scale.

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