Da série: a última do português I

possuir
Possuir, em lugar de ter. Utilizar em vez de usar. Essa mania viciosa de abandonar as palavras simples para aparentar sofisticação virou praga na academia e na imprensa, e é um dos alvos do trabalho inclemente da Sergio Leo Foundation, a principal organização mundial em defesa do leitor.

Agora, por exemplo, nosso CEO*, Oliveira, o canalha da redação, acaba de se deparar com um texto (certamente de denúncia) onde empresas de um determinado setor “possuem clientes”.

“Vamos investigar se é um caso de abuso sexual”, avisa Oliveira, enquanto tira o terno do encosto da cadeira e checa com nosso departamento de transportes para ver se o Uber não aderiu à greve geral.

 

 

*(O amigo Nélson Franco Jobim implica com o cargo de Oliveira que, defende ele, por coerência com a missão de nossa ONG, deveria ser “diretor-geral”, “diretor-executivo”ou algo do gênero grafado na língua de Machado, Eça e Paulo Coelho. Tem suas razões, ele. Mas motivos de planejamento tributário e arrecadação de fundos nos obrigam a manter um organograma em inglês e uma sede em Washington, onde esperamos, um dia, comover algum alto funcionário do Banco Interamericano de Desenvolvimento com poder de liberar uma linha de financiamento para nosso trabalho humanitário-semiológico).

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Senta, que ele chegou. O sommelier de caderno literário.

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Bela, muito bela, a idéia do Maurício Meirelles, na Folha, de ir ao subúrbio para mostrar como sobrevive o Rio de Lima Barreto. E de começar o artigo com um saborosíssimo lead literário. Uma delícia. Tem um ou outro parágrafo que mereceria ficar mais tempo no decanter para respirar, mas, no geral, o retrogosto é suave, com tons cítricos e agradável persistência no palato. A foto é mais bem aproveitada que nO Globo, que reproduziu a mesma imagem de Lima, único negro na formatura da Politécnica, único olhando tudo de lado, como nota a legenda da Folha. Já a crítica do Antônio Risério que acompanha a matéria é meio amarga, tem notas de implicância com o bom mocismo politicamente correto da Lilia Schwarcz na biografia do Lima, e parece mais apropriada ao gosto dos tradicionalistas com apetite por crítica literária aderente à estrutura dos textos, sem muitas concessões gustativas ao contexto socio-antropológico dos autores.
O Leo Cazes, nO Globo, vai mais no estilo merlot, um bouquet familiar e um surpreendente toque de angústia, sobre a relação entre Lima e o “racismo científico”da época. De estalar a língua. O resultado final é de sabor redondo e bem encorpado, com textura complexa e muito densa.
No Estadão, a melhor foto da Lilia, não só porque ela está bem bonitinha na imagem, mas pela galeria de obras em papel atrás, que adorei. O Ubiratan Brasil optou pelo convencionalismo de um cabernet sauvignon, correto, com elogios à historiadora, uma descrição do livro que desperta curiosidade e uma entrevista convencional mas com evolações de grande espírito, que acabam trazendo ao paladar sabores não explorados nas outras matérias, como detalhes de certas facetas “do contra” de Lima Barreto, explicações sobre sua rivalidade com Machado de Assis e o fato de jogar no meu time, o dos que detestam futebol.
Enfim, recomendo a degustação dos três, que harmonizam muito bem com esse sabadão preguiçoso de sol e frio.
Aqui, a da Folha.

Aqui,  dO Globo.

Aqui, do Estadão.

E viva a Joselia Aguiar, que meteu o Lima na Flip e certamente inspirou essa profusão inebriante de notícias recentes sobre o sujeito.

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Bombando nos jornais

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Um evento que não se notava há algum tempo foi registrado hoje pela Sergio Leo Foundation, entidade de defesa dos direitos do leitor: segundo informou grande jornal de alcance nacional, na edição de hoje, a notícia de um fato surpreendente “caiu como uma bomba”.
Já houve tempos em que essas bombas caiam com tanta frequência que Oliveira, o canalha da redação e CEO da SL Foundation, temia pela sobrevivência da espécie, principalmente as espécies política e a administrativa. Consulta feita pelos estatísticos da instituição, nesta manhã, identifica pouco mais de 71 mil ocorrências no Google para a expressão “caiu como uma bomba”, resultado que mostra a persistência, no país, de um conflito de porte médio, geo-referenciado pelos departamentos de lugares comuns das principais organizações jornalísticas.
Os últimos bombardeios mostravam forte potencial explosivo no arsenal armazenado pelo Judiciário, com o insólito e frequente registro de várias listas (“do Janot“, “de Fachin“) caindo como petardos na capital federal.

A mais recente queda de artefato bélico, segundo informa Oliveira com base na leitura de hoje, teria ocorrido em Moscou, aos pés da comitiva do presidente da República do Brasil, e estaria relacionada com botões que teriam sido apertados por uma comissão do Senado Federal.
“Isso significa que a tecnologia nacional já está habilitada a usar mísseis de longo alcance e não poupa nem as grandes potências mundiais; isso não vai terminar bem”, ponderou Oliveira, que advoga pelo desarmamento dos operadores de clichê nas organizações jornalísticas brasileiras.
P.S.: A Sergio Leo Foundation acaba de receber informes contraditórios, pela TV. Segundo comentário abalizado em programa matutino, a ação bélica no Senado apenas “acendeu uma luz amarela”. Oliveira, o canalha da redação e CEO de nossa querida instituição em defesa do leitor, já acostumado a essa vigilância jornalística nos semáforos do país, acredita que possa ter havido um curto circuito.
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geografia da desaparição

indio paulista

São Paulo, cheio de índios

,teve de matá-los para dar nome às ruas

troféu-logradouro

exibido aos jipes do safári urbano

São Paulo enterrou seus rios

que hoje correm nas sarjetas

das veias sujas da pobreza urbana

Onde os novindígenas de São Paulo

vivem da caça e coleta

de  esmola

e belas latas

de alumínio reluzente.

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O Brexit, em um scketch

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Adeus, Todorov. A literatura continua em risco.

Morre Todorov, grande teórico do estruturalismo que, em 2007, levantou poeira criticando a hegemonia … dos estruturalistas no ensino (e crítica) de literatura, metendo o malho no que ele chamou de “umbiguismo solipsista”, uma espécie de ode ao individualismo do Autor que levou a um formalismo excessivo e a um ensino dedicado a decompor a estrutura dos textos, deixando de lado, como tabu, a análise dos temas tratados pelos escritores.

A ECO-UFRJ me fez cria do estruturalismo, e gosto dessa busca dos andaimes da literatura, mas sempre me intrigou uma característica comum nos muitos saraus e feiras literárias: até autores que defendem a ênfase no exclusivamente literário, o texto em si, e minimizam a importância dos temas nas obras dos escritores, deixam de lado, nas palestras, qualquer debate sobre a técnica e as características estruturais dos textos para falar… das historinhas trazidas pelos livros, e das anedotas sobre o trabalho de escrita das obras.

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Incluo aí os pós-estruturalistas ou que nome seja dado ao pessoal que defende “desconstruir” os textos, atacando os mecanismos que tornam a escrita e a leitura uma ação condicionada por automatismos impostos pela cultura. Ou tentando ser mais claro sobre algo que pouca gente entende direito até hoje: a turma que vê em todo texto uma violência ideológica, a ser devidamente mastigada e cuspida em pedacinhos pelo crítico/autor, esses, também, quando sobem no palco, falam é da historinha do livro, na maior parte das vezes.
Todorov, num livro pelo qual tenho o maior carinho “A Literatura em Perigo”, publicado aqui pela Difel em 2009, tradução de Caio Moreira, fala com erudição espantosa e leve sobre como a literatura tem, sim, muito a ver com os temas de que ela trata e a vida de seus autores; e defende que qualquer esforço para entendê-la tem de tratar também desses aspectos. (De lambugem, pode-se dizer que qualquer esforço de fazer literatura deve evitar a tentação do formalismo niilista. O livro termina com uma deliciosa troca de cartas entre Georges Sand e Flaubert, com uma torcida evidente para a visão de mundo da primeira).Recomendo esse livrinho do falecido, de menos de 100 páginas, que trago em PDF aqui NESTE LINK pra vocês.
E AQUI, o ótimo necrológio do finado, pelo NY Times.
De nada, tamos aí pra isso mesmo.

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Eu e Paulo Francis, uma história breve

Paulo Francis, capa da Ilustrada de sábado; também tenho minha historinha com ele.
Mandado pelo Josias de Souza a Nova Iorque, na primeira viagem do Collor aos EUA, seriamos eu e o Francis a fazer a cobertura da Folha de S. Paulo. Liguei para ele esperando ouvir ao telefone aquela dicção caricata da TV e me atendeu um carioca simpático, com voz absolutamente normal. Quase peço para que chamasse o verdadeiro Paulo Francis.
No dia seguinte, vejo, no café do Plaza Hotel, que ele estava em uma mesa com outros jornaistas; ele se levanta e vem até mim, aquele neófito de 28 anos, para explicar: “olha, o Collor chamou alguns jornalistas para um papo, eu estou entre eles, mas na saída te conto tudo e v. vê o que quer aproveitar no seu texto”.
Aproveitei quase nada no relato com minha apuração do dia da comitiva, e no dia seguinte, minha matéria estava no alto da página, acima da dele, não por ter mais qualidade, mas por lidar com o factual. Historinha boba, como se vê, mas minha constatação in loco de como o Francis podia ser um modesto, acolhedor e gentil companheiro de cobertura.
No mais divertido, ele não participou: a primeira manhã de domingo, com toda a imprensa na porta do Plaza à espera do Collor que, à frente do Central Park, com certeza aproveitaria a locação para um jogging marqueteiro. Um sujeito de roupa caqui, meio debochado, muito à vontade, que me pareceu um desses radialistas que aparecem do nada, de rádios obscuras, em toda cobertura internacional, fazia piadas. Cara simpaticão, que, depois descobri não ser radialista e se chamar Élio Gaspari.rc-theres-an-awful-lot-of-collor-in-brazil-1
Sai Collor. Atrás dele os fotógrafos (e eu, que me recuperava de uma hepatite), todos em cima de bicicletas alugadas ali no Central Park; e os cinegrafistas, cuja equipe não permitia ir de bicicleta (na época iam acompanhados de uma equipe de dois, o operador de vt e o iluminador) saíram logo atrás, em charretes alugadas dos serviços de turistas do parque, e, atrás deles, vários repórteres correndo com as pernas que a natureza lhes deu.
Ao ver sair aquele circo, uma senhora, na porta do Plaza só conseguiu exclamar, espantada: “what is that? Who is he???”
O Lucas Mendes gritou, salvando a pátria:
“He is the President…of Argentina!”

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