Meu conto favorito – O Alienista (e isso é conto?)

MachadoO alienista é muito mais que a história das peripécias e frustrações de um médico ao testar teorias sobre a loucura nos habitantes de uma cidadezinha. É exemplar até sob o ponto de vista da teoria literária, exemplo clássico de como é problemático definir o gênero “conto”. Há quem o chame de novela, classificação dos franceses para textos assim, com mais de vinte páginas. E isso nos obriga a, machadianamente, interromper essa resenha para uma pequena digressão sobre a natureza do conto.

Tão clichê quanto citar O alienista como modelo de conto-que-pode-ser-novela-e-vice-versa é lembrar, nessa hora, a ideia de que o conto é o texto que vence o leitor por nocaute, diferente do romance, vencedor por pontos. Julio Cortázar, considerado o autor da definição, lançada numa palestra em Cuba, por volta de 1970, atribuiu a frase a um anônimo “escritor argentino, muito amigo do boxe”.

Essa analogia violenta só vale mesmo para quem entende a leitura como um “combate” entre o texto e o leitor. O próprio Cortázar admite ver, no contista, “um boxeador muy astuto”, que administra cada golpe pensando no efeito derradeiro; mas, para ele, o que faz do conto um conto não é nenhuma pancadaria textual. Não é um embate, é a noção de “limite”, de “economia de meios”, de “corrida contra o relógio”.

Definição por definição, a do Ricardo Piglia, também clichê nesse debate, é mais rica: todo conto apresenta uma história enquanto desenvolve outra, escondida. Piglia, com essa definição, indicou, para mim, algo essencial: paralelamente ao relato aparente do conto, que se concentra em um incidente, um personagem ou um horizonte particular, há, obrigatoriamente, um comentário, uma narrativa, uma descrição que torna mais clara ou saborosa a história principal e amplia ou sofistica nossa visão de mundo.

Não é um enigma a ser desvendado, mas uma “verdade secreta sob a superfície oculta da vida”. Mal comparando, a breve melodia do conto se faz acompanhar, sempre, de uma harmonia que a sustenta e lhe dá sentido. (segue AQUI)

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Sobre sergioleo

Escritor, Jornalista, artista plástico
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