Flobé, o mané

E subitamente, Gustave se viu cercado por demônios.  Tivera uma boa razão de viver, trabalhara a vida toda por uma causa justa. Melhor dizendo, por uma palavra justa.
FLOBÉ
Fizera jus à existência abonada, justo nisso: fazendo justiça às ideias, cada uma delas ligada ajuizadamente a uma única e solitária palavra, aquela que, justificadamente, justamente aquela, se ajustava ao que determinava o juízo. Fizera o que era mais correto.

E, ao morrer, descobriu merecer não o Paraíso dos martirizados pelos tormentos do bem dizer e bem fazer, mas a condenação ao Inferno dos bem intencionados.

Era um homem contemporâneo do século dezenove, ajuizadamente agarrado a almas do século dezesseis, apropriadamente aferradas a uma verdade que acreditavam ver precisamente revelada por seus escritos, desde que encaixada  adequadamente nas palavras certas.

Amarrado ao braseiro infernal onde a iniquidade dos capetas sem nome lhe furava as carnes, Gustave descobriu-se abandonado de ideias e sem palavras, queimado pela realidade do próprio suplício.

E, enquanto ardia,  as ideias flamejantes do passado convertidas em cinza pela experiência incendiária de seu castigo tirânico, percebeu, acomodado, que havia passado pela terra procurando, na verdade, a palavra errada, aquela original, arredia ao controle das pessoas, não ajustada aos lugares comuns, da qual ele, só ele, saberia o significado exato.

E seu juízo mostrou-lhe que ninguém _ nem ele mesmo, no futuro _ faria justiça ao esforço de adequar palavra e significado, porque cada palavra por ele resgatada de onde se escondia ganhara luzes próprias e personalidade volúvel, cambiando conforme cada encontro em sua vida de liberta.

E cada palavra errava e erraria, poderosa, pelo mundo dos justos, reajustando coisas, ela mesma coisa, em um mundo de injustiças e eterno desajuste.

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Sobre sergioleo

Escritor, Jornalista, artista plástico
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