Racismo e Monteiro Lobato

Ressuscito, com acréscimos, velha postagem aqui, porque o blogue onde ela surgiu morreu há tempos e a discussão promete viver eternamente:

“Não sei o que isso é, mas coisa boa não há de ser, não deixe, Sinhá”
Todos riram da pobre preta.
(“Monteiro LObato, Peter Pan, Ed Urupês, página 222)

“Só tomo leite”, explicou a linda princesa.”Tenho medo de que o café me deixe morena”.
“Faz muito bem”, dise Emília. “Foi de tanto tomar café que tia Nastácia ficou preta assim”.
(pag 190)

tia20nastacia

 

Emília, a mais famosa personagem de Monteiro Lobato, surgiu no mesmo parágrafo que trouxe ao mundo tia Nastácia. É o quarto, no primeiro capítulo de “Reinações de Narizinho”: Emília é “boneca bastante desajeitada de corpo” e tia Nastácia, a “negra de estimação que carregou Lúcia em pequena”. Lúcia, para quem não lembra, é Narizinho.

A descrição sucinta de tia Nastácia, a frequência com que ela aparece como “pobre preta”, motivo de riso pela ignorância, as onipresentes referências a “beiços” quando se descrevem negros nos livros de Lobato me chocaram quando comecei, uns quinze vinte e tantos anos atrás, a ler para os filhos a coleção que encantou minha infância. (E que me encanta até hoje; amo a criatividade do escritor).

Mas fui descobrindo coisa pior. É até generoso o retrato de simplória que Lobato pinta da “boa negra” _ ou da “preta”, como ele se refere sempre à cozinheira do Sítio do Picapau Amarelo.

(Aqui uma pausa: sou um não-militante simpático à causa anti-racista; mas, ainda que não vacile em apelar à lei Afonso Arinos se tiver conhecimento de algum abuso e abomine piadinhas preconceituosas, banidas da minha casa, acho que certos militantes comteme exageros, alguns sem noção nenhuma, como atacar, por exemplo, expressões como”a coisa está preta”, que faz referência não à melanina da pele da tal “coisa”, mas ao atávico medo do escuro, que já acompanhava vovó Lucy em suas cavernas da África, milênios atrás)

Com meus filhos _ que, só para constar, puxaram mais à mãe de ascendência judaica e europeia que ao pai com cara de iraniano (o que, pelos critérios de certa militância, retiraria da família qualquer legitimidade para debater o assunto)_, vi que não tinha como reler Lobato com eles sem alguma adaptação, cortes mesmo, em partes que soavam naturais na década de 30 e que hoje aparecem grosseiras, trazem a visão de um senhor fazendeiro paulista encantado com teorias eugenistas da época, para quem os negros naturalmente eram pessoas incultas, sua pouca cultura um saber intuitivo ou um misticismo atrasado, sua aparência algo longe do ideal de beleza louro de cachinhos dourados, como os anjos da fantasia. O didatismo encantador de Lobato só agrava o problema; ele é, com mérito, uma influência e tanto.

Aliás, boa parte das novas gerações conhece Lobato pela adaptação da TV, convenientemente expurgada do racismo do mestre; daí espernearem iradas no Twitter quando leem que alguém no ministério da Educação fez reparos à obra. Mas já falaremos disso.

O fato é que ninguém lê e ama Lobato pelo racismo, uma marca de época e de classe, mas pela beleza das histórias. Ele até tem trechos e trechos elogiando o saber popular, pinta o saci como um tipo genial (sem trocadilho), é carinhoso com os personagens negros, na maior parte das vezes. Expurgar o racismo dos livros não os compromete na essência. Mas lê-los sem cuidado é perpetuar preconceitos do século passado.

Se alguém comparar o excelente filme “Mercador de Veneza”, com Al Pacino, e o texto original de Sheakespeare, deve notar o esforço para humanizar a figura do judeu Shylock, avaro nojento. Após anos de polêmica, as interpretações do personagem semita peça shakespeariana que foi um sucesso na Alemanha nazista ganharam um tom menos caricatural e mais humanizado. Foi atualizada, vamos dizer.

Voltemos ao Lobato.

O susto de Nastácia ao ver a pescaria de Emília: “A negra pendurou o beiço. “Credo, parece feitiçaria”. (Reinações, página 40, Ed. Urupês, 1964). Três páginas adiante, Emília discute com Narizinho, diz que ela lambeu os beiços ao comer a traíra e a menina responde: “Lábio, aliás, beiço é de boi”. E de negro, porque é sempre beiço o que Nastácia tem, assim como outros negros nas histórias de Lobato. Mas não só.

Tia Nastácia, claro, é o para-raios mais frequente do racismo de Lobato. E é o estereótipo da “boa negra”: doce, carinhosa, jeitosa com a cozinha e as costuras e supersticiosa, ignorante, risível. Todos ficam decepcionados quando, num sorteio para ver que desenho vai orientar a feitura do “irmão do Pinóquio”, a Sorte é “tão burra” que escolhe logo o desenho de Nastácia, o “mais feio”.

Brigada com Nastácia, Emília resmunga, na página 209: “Mentira de Narizinho! Essa negra não é fada nenhuma, nem nunca foi branca. nasceu preta e ainda mais preta há de morrer”.

Esses exemplos são aleatórios, de uma releitura diagonal de quinze minutos em um só livro. Já li coisas piores em outras obras do Lobato, é só procurar. Há momentos, como em Histórias de tia Nastácia, que Lobato adota outro tom: “as negras velhas são sempre muito sabidas”, diz Pedrinho. É o gosto do escritor pela sabedoria popular, e, afinal, “tia Nastácia é povo”. Mas são muito frequentes as referências depreciativas a “preto”, comparações dos negros com animais como macaco, ênfase no misticismo e ignorância dos negros como Nastácia, ou as superstições do tio Barnabé.

Mesmo no livro em que Nastácia é narradora, Dona Benta é sempre a voz da ciência e do saber interpretando as “histórias populares” e a negra encarna o povo do senso comum, que merece até uma bronca da Emília, na página 132: “Bem se vê que é preta e beiçuda! Não tem a menor filosofia essa diaba”.

Emília, a grande heroína de Lobato, é a mais racista, muita gente deve achar graça em suas diatribes políticamente incorretas. Ela briga, fula da vida porque tia Nastácia não quis cortar a asa do anjinho e ele fugiu:

“Insisti, e ela com esse beição todo: ‘não tenho coragem… é sacrilégio’… Sacrilégio é esse nariz chato”. Dona Benta ralhou com a boneca. “Respeite os mais velhos! Não abuse!”. Nenhum reparo ao sacrílego nariz chato.

O belo, para Lobato, é o anjo que Emília rapta do Céu. Rosto como de pétalas de rosa e cabelo em cachos que nem fios de luz. Preto não tem vez na seleção estética do Sítio do Picapau Amarelo.

Agora imagine você, criança, negrinho/a com lábios grossos como grande parte dos estudntes brasileiros, especialmente na escola pública, lendo ou, pior, ouvindo a professora ler histórias com essa carga de preconceito _ especialmente forte na boneca-heroína das histórias. Que bela auto-imagem você levaria de volta para casa hein?

Sim, Lobato tem de ser entendido como pertencente a uma outra época, e não pode ser demonizado por compartilhar o espírito de seu tempo (embora houvesse gente nesse tempo que, bravamente, não compartilhava do racismo, e o racismo, em qualquer tempo, deva ser condenado). Julgando ou não o escritor, nossa época é outra, e reproduzir seus preconceitos sem contextualizá-los, sem fazer reparos a eles, é eternizá-los, dar-lhes uma legitimidade que não merecem. Por isso educadores, não só no MEC, recomendam ressalvas ao ler obras assim para crianças. mas isso é tema do próximo post.

 

 

(o tal “próximo post”, seguimento do debate foi salvo aqui:  http://www.objetivandodisponibilizar.com.br/objetivando-disponibilizar-textos-terceirizados-2-sergio-leo-e-o-quiproquo-de-monteiro-lobato/)

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Sobre sergioleo

Escritor, Jornalista, artista plástico
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