Confissões de um informante das potências estrangeiras

Sim, confesso. Atuei, por muitos anos, como informante das embaixadas dos EUA, da União Europeia, da Grã Bretanha, da França, da Itália, da Alemanha, da Áustria, da Bélgica, da Venezuela, da Argentina, da Bolívia, do Chile, do Uruguai, da Rússia… Tem até referência a mim no Wikileaks, conversas pouco interessantes que tive com autoridades dos Estados Unidos (nas quais, aliás, não reproduziram críticas que fiz à então candidata Dilma Rousseff; nem me levaram a sério nisso). Fosse eu importante, quem sabe o Wikileaks e gente desinformada por ele estaria distribuindo acusações sobre meu entreguismo às potências estrangeiras.

Nos cerca de 15 anos em que trabalhei no Valor Econômico, cobrindo principalmente política externa e política industrial, fui convidado com frequência a falar para diplomatas, autoridades, acadêmicos e outros visitantes desses países, com quem troquei ideias sobre o Brasil e sua relação com o mundo. Às vezes, as perguntas que me faziam eram mais reveladoras que quaisquer observações que eu pudesse fazer; chamavam atenção para detalhes e singularidades de meu próprio país para as quais eu jamais tinha prestado atenção.

Por essa experiência, fico uma arara quando vejo espalharem acusações mal informadas nas redes sociais especialmente a interlocutores  dos EUA, como traidores da pátria, por terem falado com diplomatas norte-americanos em conversas relatadas por telegramas vazados no wikileaks. Tratar essas conversas como denúncia sobre existência de “informantes” dos EUA é coisa de quem não digeriu as leituras de romances da Guerra Fria.

É função da diplomacia falar com autoridades, jornalistas, analistas, quem contribuir para aumentar o conhecimento sobre o país em que atuam.

É função das autoridades buscar aproximação com atores relevantes e países amigos _ e, acredite, oficialmente o Brasil não está em guerra com os EUA, nem esteve na gestão do PT, pelo contrário.

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Os telegramas do wikileaks, que o próprio wikileaks tenta vender como escândalo envolvendo Temer, mostram conversas comuns, típicas desse tipo de encontro (dos quais, repito, já participei, como jornalista que cobre relações exteriores _ que me valeram até uns dois telegramas com meu nome no wikileaks, aviso logo, entrego o jogo todo).
Temer tem muito o que ser criticado. Isso de “informante”, porém, é esquerdismo infantil, me desculpem se soo ofensivo. São de uma redundância acaciana as conversas de Temer sobre o PMDB vazadas pelo wikileaks, que o UOL, num exemplo de preguiça e mau jornalismo, reproduz dando como lead, sem nenhuma crítica, o esforço de divulgar os telegramas como afronta à patria amada.
Como exemplo do que falo, leiam os seguintes telegramas (basta clicar nos parágrafos abaixo)  e imaginem o escarcéu que se estaria fazendo, se os interlocutores/”informantes” dos EUA fossem tucanos ou Temer, e não Zé Dirceu e Genoíno. Estão lá, falando aos estadunidenses amigos, de encontros com o NSA, apoio à Alca, esforço para “moderar” Chávez, e, traição das traições, abertura para investimentos das empresas dos EUA na infra-estrutura nacional:

Aqui, Genoíno fala do apoio de José Dirceu à Alca, numa viagem “produtiva” em que mostrou interesse em estreittar relações com Washington, conversou com o NSA e falou sobre exercer influência moderadora sobre Hugo Chávez. 

Aqui, no primeiro encontro com o embaixador americano, Dirceu fala do interesse em abrir a infra-estrutura brasileira ao capital norte-americano, revela informações sobre a política nuclear e fala das dificuldades do governo Lula. 

Aqui, Dirceu, na condição de principal conselheiro político  fala a diplomatas na embaixada sobre reuniões secretas de Lula e Chávez para baixar a bola do venezuelano e promete ações para destravar as negociações da Alca. 

Até confessar aos americanos o uso de caixa 2 pelo PT Dirceu confessou, para se ter ideia do que se discute nesses papos de “informante”:

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Sobre sergioleo

Escritor, Jornalista, artista plástico
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