Pokemon Go, Janet Cardiff e a realidade diminuída

Há quatro anos, na 13º Documenta de Kassel, a artista Janett Cardiff, uma das estrelas da coleção  de Inhotim, botava no chinelo o Pokemon Go. Que, claro, não existia ainda nem como ideia, mas começaria a ser criado dois anos depois.

Os visitantes da estação de trem do centro da cidade, a Alter Banhof, recebiam um smartphone, com um filme gravado na própria estação, e fones de ouvido esterofônicos de altíssima qualidade, que tapavam o som exterior, presente, e o trocavam por instruções gravadas pela artista e som ambiente capturado durante a gravação. A um dado momento, seguindo estação adentro o roteiro indicado pela artista, telefone na mão, olhos no aparelho, você começava a se confundir: o som ligado ao que passava na telinha do smartphone fazia a experiência  gravada parecer  tão real e atual quanto as que você vivia, de fato, naquele momento, sob a mesma arquitetura.

Coincidências _ uma criança bailando na tela na mesma hora em que outra criança passava, aleatória, à sua frente; um som gravado que se encaixava na cena vista naquele momento, fora do celular _ davam a tudo um caráter de sonho, e de mágica. A vida se desdobrava em cenas que ocupavam simultaneamente o mesmo espaço, mostrando como é uma coleção de acasos, cheia de possibilidades e histórias paralelas.

Isso, sim, é o que se pode chamar de realidade aumentada.

Neste 2016, somos apresentados a um joguinho de celular, usando potencialidades do smartphone e dos mapas interativos com que a Cardiff nem sonhava. E o jogo vira uma febre, cujo prazer, pelo que entendi, consiste em catar, ao redor, personagens virtuais, para capturá-los com o telefone.

Como diz o artigo da New Yorker no link acima, o Pokemon Go pode motivar as pessoas a cobrar da tecnologia modos mais sofisticados de ter informações sobre o mundo que nos rodeia; mas, por enquanto, o que vejo é um jogo de transformar o mundo real em mero pano de fundo. E, evidentemente, o uso da atividade lúdica como um apelo a mais no esforço de uma empresa comercial para se manter lucrativa e capturar informações, não de personagens virtuais, mas de consumidores. Afinal, o maior negócio e as maiores fortunas de hoje são construídos em torno da comercialização de informações sobre as pessoas, para melhor enredá-las na malha do consumo. A alienação é tamanha que o Museu do Holocausto se viu obrigado a dizer que ali não era lugar para caça de bichinho digital.

Isso não é realidade aumentada. É o real cada vez mais condenado a um só aspecto da experiência humana.

 

(Se você clicou no link sobre Inhotim, talvez se interesse em ver mais sobre a obra “Forty Part Motet” e outras da mesma artista, AQUI.)

Falando em coincidências, a força bizarra da realidade: a Alter Banhof foi uma estação de onde partiram milhares de judeus enviados a campos de concentração, história horrenda que a Cardiff desconhecia quando decidiu gravar seu trabalho para a Documenta lá. Uma das paradas do roteiro gravado, porém, é um singelo memorial num canto discreto da estação, dedicado às pessoas enviadas para a morte: uma vitrine com pedras envolvidas por cartas escritas por crianças das escolas locais, endereçadas às vítimas que partiram por ali. Minha companheira, cujo nome, Marta Salomon, evoca longínquas raízes de uma família que hoje tem pouco de judia, com padres milagreiros em sua história e até uma lama budista, quis voltar ao memorial, depois que devolvemos os smartphones ao pessoal da Documenta.

E, ao baixarmos os olhos para as cartas, nos deparamos com essa aqui:

MartaKassel

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Sobre sergioleo

Escritor, Jornalista, artista plástico
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