O crítico, esse ressentido.

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“A tela, falar nisso, era um Mark Rothko”

Hal Foster, uma das cabeças mais instigantes da crítica de arte contemporânea, com um instrumental teórico sólido aparafusado por heterodoxias marxistas e lacanianas merece ser conhecido para além da confraria dos interessados em arte que o saboreiam muito bem. No “O Retorno do Real“, do final dos anos 90, lançado aqui em português há dois anos na tradução de Célia Euvaldo, ele critica a consagrada Teoria da Vanguarda, de Peter Bürger, que vê nos neovanguardistas de meados do século  a história repetida como farsa: Foster, mal resumindo, diz que as vanguardas artísticas só podem ser entendidas como um esforço do artista para antecipar o futuro reagindo ao passado, assim como o indivíduo, segundo Freud, reconstrói seus traumas sob novas formas de lidar com o mundo.

O neovanguardista, diz ele, tenta romper com as maneiras convencionais de entender a realidade, como se falasse do passado sob o ponto de vista de um futuro que ele só pressente, que não aconteceu. Não é possível identificar de cara o que é a grande arte que instaura novos significados, porque ela é sempre traumática, não há significantes para expressá-la ainda. E os críticos que se virem com um bagulho desses.

Bom, só mais uma mençãozinha antes de entrar de verdade no assunto deste post: Hal Foster é um dos criadores da revista October, uma das mais férteis matronas da teoria da arte contemporânea. Entre os muitos artigos clássicos paridos por essa turma está o da mítica Rosaling Krauss, “Escultura no Campo Expandido“, que definiu para muita gente nos anos 80 o novo tipo de intervenção que se estava fazendo, no terreno escultórico, muito diferente do que se conhecia até então como escultura. O artigo está num livro seminal também do Foster, o “Anti-Estética-Ensaios de Cultura Pós Moderna“.

E chegamos ao motivo do post: é que a edição de setembro da Frieze (só agora pousando por aqui) repete uma conversa do Hal Foster com o escritor Ben Lerner, em que, entre muitas coisas, falam do pensamento crítico em arte. Trouxe minha tradução de um trecho do Foster que me divertiu, pra vocês:

Sempre há um pouco de desprezo (contempt) na crítica. Na Genealogia da Moral (1887), Nietzche se preocupa porque a crítica está muito fundada em ressentimento, o que, para ele, está associado a todo tipo de coisas ruins _ a mentalidade judaica, acima de tudo. A ironia, claro, é que Nietzsche era um ótimo crítico. Mas acho que se pode torcer um pouco essa formulação e argumentar que uma dose de resssentimento social é essencial à crítica cultural. Certamente o é para mim.

Deixa eu lhe contar minha cena primordial* enquanto crítico, que, como todas as cenas primordiais, não é inteiramente real: é uma ficção que funciona para mim. Cresci em Seattle, numa família de classe média ascendente. Meu melhor amigo era de uma família mais rica, e eles tinham essa coisa cahamada ‘arte’. Eu sabia o que eram, no geral, pinturas e esculturas, mas nunca tinha visto uma que não fiosse reprodução. Um dia, quando tínhamos cerca de 12 anos, estávamos em sua sala de estar, um espaço onde nunca tínhamos ido, e olhei aquela coisa na parede. Sabia que era uma pintura, sabia que era abstrata, mas era tudo. E pensei: é a coisa mais bonita que jamais vi. E, então, pensei: por que eles têm isso e eu não? Acho que se eu tivesse parado no primeiro pensamento, a experiência estética, teria virado artista. Mas o segundo pensamento cortou a experiência estética com um ressentimento crítico, e isso não podia ser desaprendido“.

 

*Foster usa o termo “primal scene”, usado por Freud ao citar seu caso do Homem dos Lobos, para falar da experiência da criança que, pela primeira vez, vê os país numa cena de sexo e sai traumatizada, coitadinha..

 

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Sobre sergioleo

Escritor, Jornalista, artista plástico
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