O Estado Policial e o estado da arte

hunterthompsonp3

Você começa a se acostumar a ver manchetes com “Polícia Federal suspeita que…”, e lembra do tempo em que notícia de manchete era a PF apurar algum crime, não fazer acusações antes de mostrar as provas; aí você vê a candidata do establishment à presidência dos Estados Unidos afirmar que vazamentos da PF de lá, o FBI, ajudaram a fazê-la perder a eleição; e, a propósito disso, aparece um belo artigo do Sérgio Augusto sobre o poder imenso que J. Edgar Hoover teve como manda-chuva do FBI, infernizando a vida e até provocando o suicídio de artistas e outra gente que ele perseguiu por ser esquerdista na visão dele.

E aí, pega um livro esquecido na estante e é o Hunter S. Thompson, em sua autobiografia, lembrando já de cara que, na primeira vez em que enfrentou os agentes do FBI tinha… nove anos. Ele e os amigos fizeram uma armadilha para punir um motorista de ônibus escolar que sadicamente não esperava alunos atrasados; derrubaram uma enorme caixa de correios sobre a rua, na hora em que o motorista pasasva à toda, provocando uma colisão. Danificar caixas de Correio é crime federal, e os policiais foram a casa de Hunter garoto, dizendo que ele havia sido dedurado pelos amigos.

O texto está na foto, acima e abaixo, mas traduzo um trecho para dar ideia:

“…não minta a esses homens! Eles têm testemunhas!” Os agentes do FBI balançaram a cabeça um para o outro, carrancudos, e moveram-se como se fossem me levar, detido, para a cadeia.

Foi um momento mágico na minha vida, um instante determinante para mim ou para qualquer garoto de nove anos crescendo nos anos 40 após a II Guerra Mundial _ e recordo, claramente, de mim, pensando: “Bom, é isso aí, eles são os G-men…”

WHACK!! Como o flash de um relâmpago próximo que ilumina o céu por três ou quatro frações de segundo aterrorizantes antes que você ouça o trovão _ uma questão de zepto-segundos em tempo real _  mas quando você é um garoto de nove anos com dois (2) agentes adultos do FBI quase agarrando você para meter numa prisão federal, uns poucos zepto-segundos silenciosos podem parecer o resto de sua vida… e foi como senti naquele dia e, fazendo um retrospecto severo, eu estava certo.  Eles tinham me pegado, em flagrante. Eu era Culpado. Por que negar? Confesso Agora, e me sujeito à misericórdia deles ou  _

E o que? E se eu não confessar? Essa era a questão. E eu era um garoto curioso, então decidi, naquela base, jogar os dados e fazer a eles uma pergunta.

“Quem?” Eu disse. “Que testemunhas?”

Não era grande coisa para perguntar, naquelas circunstâncias _ e eu realmente queria saber quem exatamente entre meus melhores amigos e irmãos de sangue nos terríveis Falcões D.C. havia quebrado sob pressão e me traído para esses bandidos, esses brutamontes pomposos e puxa-sacos com crachás e cartões de plástico em suas carteiras que diziam trabalhar para J. Edgar Hoover e que tinham o Direito, e mesmo o dever, de me botar na cadeia porque ouviram um “rumor na vizinhança” que alguns dos meus garotos haviam vacilado e me dedurado. O que? Não, impossível.

Ou não provável, de qualquer maneira. Caraca, ninguém dedurava os Falcões D.C., ou não o seu presidente, pelo menos. Não a MIM. Então perguntei de novo: “Testemunhas? Que testemunhas?”

E foi tudo que precisou, pelo que lembro. Observamos um momento de silêncio, como meu velho amigo Edward Bennett Williams diria. Ninguém falou _ especialmente não eu _ e quando meu pai finalmente quebrou o silêncio sinistro, havia dúvida na sua voz. “Acho que meu filho tem razão nesse ponto, policial. Com quem exatamente vocês falaram? Já ia perguntar isso eu mesmo.”

“Não o Duke!” eu gritei. “Ele foi para Lexington com o pai dele! E não o Ching! e Não o Jay! _ ”

“Cala a boca”, disse meu pai. “Fica quieto e deixa eu cuidar disso, idiota.”

E foi o que aconteceu, moçada. Nunca vimos aqueles agentes do FBI de novo. Nunca. E eu aprendi uma lição poderosa. Nunca acredite na primeira coisa que um agente do FBI te diz sobre nada _ especialmente se ele parece acreditar que você é culpado de um crime.”

 

hunterthompsonpg4

hunterthompsonpg5

hunterthompsonabre

 

 

 

Anúncios

Sobre sergioleo

Escritor, Jornalista, artista plástico
Esse post foi publicado em Uncategorized. Bookmark o link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s