Botando Piglia

respirapigliaDá uma história? Se dá, começa há três anos. Em abril de 1976, quando é publicado meu primeiro livro, ele me mandou uma carta. Com a carta vem uma foto, eu no colo dele: nu, estou sorrindo, tenho três meses e pareço um sapinho. Ele, em compensação, saiu bem na fotografia: paletó cruzado, chapéu de aba fina, o sorriso franco _ um homem de trinta anos que olha o mundo de frente. Ao fundo, apagada e quase fora de foco, aparece minha mãe, tão moça que no início quase não a reconheci.
A foto é de 1941; atrás, ele havia escrito a data e, depois, como se quisesse orientar-me, transcreveu as duas linhas do poema inglês que agora serve de epígrafe a esse relato.
Não houve nenhuma outra tragédia na história de minha família; nenhum outro herói digno de ser lembrado.(…)Casado com uma mulher de posses, uma mulher que tinha o nome incrível de Esperancita e a respeito de quem dizia-se que tinha um coração frágil e sempre dormia com a luz acesa e que nas horas de melancolia rezava em voz alta para que Deus pudesse ouví-la, o irmão de minha mãe desaparecera seis meses após o casamento, levando todo o dinheiro da senhora sua esposa para ir viver com uma bailarina de cabaré conhecida pelo nome de Coca.

Assim começa a “Respiração Artificial”, do Ricardo Piglia, na tradução da Heloisa Jahn editada pela Iluminuras; e com um início desses é difícil, muito difícil, largar sem ir até o fim.

Pois eu larguei.
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Antes de encostar o bichinho, como faço com outros quinze livros que se empilham na cabeceira da minha cama ou me esperam pacientes na mesa do escritório, cheguei até a página oitenta, mais ou menos. Não lembro o que me fez interromper a leitura. Mas, com a morte do Piglia, retomei a história desde o começo, relendo, também as anotações que andei rabiscando nas páginas, encantado.
Piglia, em uma das muitas entrevistas que andei catando no You Tube, comenta como todas as histórias, inclusive a nossa, pessoal, são ficções, que arrumamos para tentar dar um sentido a uma coleção de fatos desconexos, complexos, muito frequentemente aleatórios e sem grande significado. Dá vontade de reproduzir aqui alguns dos trechos do respiração artificial em que essa tese está na base da narrativa, que conta a relação entre o narrador, Emílio Renzi e seu tio Marcelo Maggi (conta bem mais que isso, mas o pretexto do livro é esse). A maneira como ele, no começo, entrelaça história familiar e História do país é magistral.
Fala Maggi, da desventura do historiador às voltas com documentos de um personagem histórico, avô da mulher que abandonou: “desventura clássica: ter querido apoderar-me desses documentos para decifrar neles a certeza de uma vida e descobrir que são os documentos que se apoderaram de mim e me impuseram seus ritmos e sua cronologia e sua verdade particular”.
Nada mais atual nesses tempos de pós(não)-verdades, em que documentos já são recebidos com uma desconfiança inédita, e os relatos se sobrepõem aos fatos como embalagens capazes de mudar o sabor dos alimentos.
“Os tempos mudaram, as palavras perdem-se cada vez com mais facilidade, podemos vê-las flutuar na água da história, afundar, aparecer novamente, misturadas aos escolhos que passam nessas águas”.
Isso era o que dizia Emilio Renzi, mas era a década de 80 do século passado.

*******

O amigo de um amigo meu uma vez teve um acidente: um sujeito meio louco agrediu-o com uma navalha e o manteve sequestrado no banheiro de um bar por quase três horas. Queria que lhe dessem um automóvel e um passaporte e que o deixassem atravessar a fronteira para o Brasil, do contrário ia ter que matá-lo (ao amigo do meu amigo). O louco tremia como um possesso e pôs a navalha em sua garganta e em um determinado momento obrigou-o a ajoelhar-se e rezar o pai nosso. A coisa estava ficando cada vez mais preta quando de repente passou o acesso do louco e ele soltou a arma e começou a pedir desculpas a todo mundo. Não há quem não tenha seus momentos de nervosismo, dizia. O amigo do meu amigo saiu do banheiro caminhando como se estivesse dormindo, encostou-se numa parede e disse: Finalmente alguma coisa me aconteceu. Finalmente alguma coisa me aconteceu, não é sensacional, escrevia-me Maggi

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Sobre sergioleo

Escritor, Jornalista, artista plástico
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